AS MARCAS VIVAS DUMA HISTÓRIA QUE PARECE TER OCORRIDO ONTEM

Casa de Samora Machel na Tanzania
As marcas vivas duma história que parece ter ocorrido ontem
Mais de quarenta e cinco anos depois, a história dos movimentos de libertação da África Austral continua bem viva na Tanzânia, particularmente na capital, Dar-es-Salaam. Moçambique carimba a sua presença nessa história, através de marcas tão penetrantes e frescas como se os factos que simbolizam tivessem acontecido ontem. As autoridades moçambicanas, através da Embaixada em Dar-es-Salaam, estão a fazer algo para que essas marcas não se apaguem. Neste momento decorre um trabalho visando conservar e preservar esse património em território que na década de 60 serviu de retaguarda segura para os movimentos de independência da região.
Se o “canto da casa” que elegemos para acolher o nosso hóspede pode servir como indicador do nível de consideração que temos por ele, então pode-se concluir que a cúpula da Frelimo gozava de boas relações e fortes simpatias junto do governo tanzaniano, na altura liderado pelo Mwalimo Julius Nyerere. Eduardo Mondlane e Samora Machel (nalgum momento) viveram em vivendas situadas em Yosterbay, uma zona residencial privilegiada, junto à Praia. O primeiro no Msasani Road, numero 130, e o segundo no 65, Mkadini Road. Diz-se que foi na casa de Msassani Road, onde Mondlane foi morto.
Não muito distante de Yosterbay situa-se o cemitério de Kinondony, onde foram sepultados os restos mortais de Eduardo Mondlane, antes da sua transladação para Moçambique. Kinondony é também o espelho do papel da Tanzânia na luta de libertação dos povos da África Austral: ali jazem restos mortais de outros nomes ligados à história dos movimentos de luta da região, incluindo do Congresso Nacional Africano (ANC) e do Congresso Pan-Africano (PAC). São marcas vivas e emocionantes de uma história que parece ter se dado ontem.
Numa das artérias que leva o nome de uma das grandes figuras de África, o ganês Nkwame Nkrumah, localizam-se os escritórios da Frelimo, meio abandonadas. É que depois da independência, as instalações onde funcionou este local histórico da luta passaram, por empréstimo, à Associação de Amizade Tanzania-Moçambique (TAMOFA). Entretanto, razões financeiras dificultaram a continuação da actividade por parte da agremiação e a conservação do lugar.

Casa de Joaquim Chissano
PATRIMÓNIO DA FRELIMO EM PROCESSO DE COMPRA
A ideia é, segundo o diplomata, transformar aquele local em Centro de Documentação da Luta de Libertação Nacional. Para o efeito foram encetados contactos com o Ministério dos Antigos Combatentes e a Universidade Eduardo Mondlane para se procurarem formas de conservar e preservar este e outros locais históricos moçambicanos, neste caso localizados na Tanzania.
Um outro problema destes lugares é que não se pode encontrar lá nada escrito sobre a história da luta de libertação. Para inverter este quadro decorrem contactos para o envio de equipas e/ou fontes primárias (membros fundadores do movimento ou pessoas que passaram em diferentes fases por esses locais espalhados pelo território tanzaniano.
“E se ainda se pode encontrar alguma coisa nesses locais é o que foi resgatado. Mas também é preciso dizer que grande parte da documentação que se encontrava nos escritórios (da Frelimo) já foi canalizada para instituições do Estado moçambicano e esperamos que parte desse material seja depositada no Museu da Revolução, ora em reabilitação para que os jovens consigam acompanhar a sua história.
ESTAMOS A ETIQUETAR OS LOCAIS HISTÓRICOS
Falando sobre Tunduro, Zacarias Kupela lembrou que, por ocasião do 35º aniversário da Organização da Mulher Moçambicana (OMM), que se assinalou recentente, foi lá inaugurado um monumento para valorizar aquele lugar histórico. Segundo afirmou, Tunduro tem uma grande história. “Foi lá, onde funcionou a primeira escola primaria; um orfanato e centro de tratamento de feridos de guerra. Foi em Tunduru onde se realizavam conferências de educação, saúde, casamento dos nossos dirigentes, como o foi o caso de Samora Machel, presidente Armando Guebuza, só para citar alguns nomes, porque era um centro social, pois estas coisas não podiam acontecer em Nachinguweia, um centro de preparação político-militar. Este sítio já tem etiqueta, com apoio dos fundos da UNESCO”, explicou Zacarias Kupela, ele próprio antigo combatente.
O chefe da missão dipllomática de Moçambique em Dar-es-Salaam defendeu a realização de estudos e criação de um fundo próprio para a construção e conservação permanente de pontos históricos naquele país vizinho.

Casa de Mondlane, onde encontrou a morte
ALIAR O ÚTIL AO AGRADÁVEL
“Nós já solicitamos ao Ministério do Turismo e algumas agências para que esses lugares sejam conhecidos pelos moçambicanos, particularmente pela nova geração, através de excursões para a Tanzania”, disse.
Existem algumas propostas para gemelagem entre escolas secundárias moçambicanas e as congéneres tanzanianas. E este trabalho vai começar este ano com a primeira gemelagem a ser selada entre uma escola secundária de Tunduru, e a escola secundária de Mecula, província do Niassa. Depois seguirá a gemelagem entre instituições de ensino das províncias de Cabo Delgado e de Mtwara (sul da Tanzania, ainda em identificação); A Escola secundária Samora Machel (Beira), com o Centro Histórico Julius Nyerere.
Existe um acordo de boa vizinhança entre as províncias do sul da Tanzania, nomeadamente Mtwara e Rovuma, e as de norte de Moçambique: Niassa e Cabo Delgado.
Mas, por outro lado, há uma ideia aflorada pelas partes no sentido de haver gemelagem entre todas as províncias dos dois países. A concretizar-se esta ideia, segundo o embaixador moçambicano, representaria um grande contributo para a consolidação das ligações históricas e a transmissão de valores que essa relação insere, sobretudo entre a nova geração.

Onde foram sepultados restos mortais de Mondlane
KUPELA: O TRADUTOR DE DOCUMENTOS
Afinal, esta é uma das coisas que ele faz desde o tempo de luta de libertação nacional. Em Dar-es-Salaam, ainda muito jovem, Zacarias Kupela fazia trabalho de tradução de “documentos importantes” da Frelimo como discursos, comunicados de guerra e sobre a luta de libertação, em geral.
Divulgava em swahili as actividades do movimento de libertação para a comunidade moçambicana na Tanzânia, incluindo para o arquipélago de Zanzibar; para as zonas libertadas, em Cabo Delgado. Recebia e dava assistência, nos escritórios da Frelimo, a jornalistas “free lancer” que precisavam de obter informação sobre o processo da luta de libertação. Era o trabalho de um jovem que na altura contava os 19-22 anos. Hoje, Zacarias Kupela tem 60, feitos em 15 de Dezembro ultimo.
Por isso, para ele, estar na Tanzania, onde e Alto Comissário de Moçambique (Embaixador) e como se tivesse regressado a casa.
- LÁZARO MANHIÇA
