PORT-HIST - GENERAL KAÚLZA DE ARRIAGA 1915-2004: O HOMEM QUE SALVOU SALAZAR
KAÚLZA DE ARRIAGA (1915-2004)
O homem que salvou Salazar
O General Kaúlza de Arriaga, figura emblemática da extrema-direita militar, que esta semana faleceu em Lisboa aos 89 anos, vítima de cancro, foi um dos grandes responsáveis pela longevidade política de Salazar. Subsecretário de Estado da Aeronáutica em Abril de 1961, quando Botelho Moniz, ministro da Defesa da Ditadura, tenta derrubar Salazar, Kaúlza lidera a operação que faz abortar o golpe e leva à prisão dos conspiradores, reforçando o Estado Novo. Contou, para tanto, com a intervenção das forças pára-quedistas, que ajudara a fundar e lhe eram extremamente fiéis. O episódio é recordado 43 anos depois pelo seu amigo e admirador Jaime Nogueira Pinto, também ele um homem da direita.
O Golpe Botelho Moniz, que visava colocar Marcello Caetano no lugar de Salazar e repensar a questão colonial, falhou também por uma ingenuidade impensável do ministro-conspirador, Botelho Moniz, que contava com o apoio discreto dos americanos, e que cometeu a imprudência de informar previamente Américo Thomaz das suas intenções…
«Spínola dos ultras»
Jaime Nogueira Pinto, que não poupa elogios à inteligência política do general, lamenta ainda que também ele tenha cometido a ingenuidade de conspirar com Thomaz para derrubar Caetano, nas vésperas do 25 de Abril, em vez de liderar o golpe que restituísse o regime à pureza do salazarismo.
«Já todos tínhamos percebido que o trunfo era espadas e que quem tomasse o poder ficava lá», observa o professor universitário.
, observa o professor universitário.Em seu entender, se tivesse actuado pela via armada, em vez de fazer lóbi e acreditar num certo legalismo, Kaúlza de Arriaga «poderia ter sido, num dado momento, a alternativa a Spínola» na conspiração que conduziu ao derrube de Marcello Caetano e à vitória do 25 de Abril.
Passado compulsivamente à reserva logo em Maio de 1974, o general acabaria por ser preso a 28 de Setembro, por envolvimento no golpe fracassado naquela data, ensaiado pela extrema-direita, e que ficou conhecido como «maioria silenciosa». Só viria a ser libertado 16 meses depois,em Janeiro de 1976, no rescaldo do 25 de Novembro e da acalmia política que começava a instalar-se.
Considerando-se humilhado e ofendido com a prisão a que foi sujeito, Kaúlza instaurou um processo contra o Estado, exigindo mais do que dinheiro,uma reparação moral assente num pedido de desculpas. Dez anos depois, a sentença do Supremo Tribunal Administração concedeu-lhe a vitória que não desejava, condenando o Estado português a pagar-lhe uma indemnização de cem contos e um escudo.
Vencido mas não convencido, no Verão de 1977 ainda funda e dirige um partido de extrema-direita, o MIRN (Movimento Independente de Reconstrução Nacional), que não atinge nenhum dos seus objectivos. A explicação desse fracasso, na opinião de Jaime Nogueira Pinto, um estudioso da história recente de Portugal e das da organizações de direita, decorre do facto de o espectro político estar já ocupado pelo PPD, o CDS e o PS, que se mostravam bem mais aliciantes para a classe média conservadora.
Rádio Renascença: a manipulação falhada
Albérico Fernandes, actual director do «Jornal das Regiões», que esteve mobilizado em Moçambique ao tempo em que Kaúlza de Arriaga era comandante-em-chefe da colónia, e teve participação na célebre «Operação Nó Górdio» - a maior de toda a guerra colonial - colocado como alferes em Cabo Delgado, recorda de Kaúlza outra história clarificadora do seu carácter combativo, da persistência nas ideias e do propósito de nunca desarmar.
Director da Rádio Renascença. entretanto retirada das mãos dos que a tinham posto «ao serviço da classe operária, dos camponeses e do povo trabalhador», Albérico Fernandes manteve na época da formação do MIRN alguns contactos com o general. As reuniões decorriam habitualmente numa casa rodeada de altas medidas de segurança, que obrigava os visitantes a comunicar previamente a matrícula do carro em que se deslocavam.
A proximidade levou o general a interessar-se pela Rádio Renascença e a ensaiar a tentativa de a colocar ao serviço do MIRN - tentando repetir, agora com sinal contrário, a manipulação que tinha sido exercida sobre a emissora católica pela extrema-esquerda.
Foi o fim da relações entre os dois homens. «A certa altura tentou utilizar-me e utilizar a emissora no apoio às suas ideias e ao seu partido e tive claramente que lhe dizer que não», recorda Albérico Fernandes. Isso não o levou no entanto a perder o respeito pelo general, que recorda como «um fidalgo e um homem culto e inteligente».
Orlando Raimundo
in: Expresso 7 Fevereiro 2004