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Caderno de Memórias Coloniais - por Isabel Figueiredo. Crítica.

Faltava um relato assim, na primeira pessoa. Foi isso que fez Isabela Figueiredo (n. 1963), sem poupar nos detalhes. O seu Caderno de Memórias Coloniais é uma obra imprescindível para compreender o sentido (ou sem sentido) da nossa presença em África. Isabela ainda não tinha 13 anos quando deixou Moçambique. Narrativa mnemónica, portanto. Isenta de nostalgia, vontade de dourar a pílula ou propósito de reescrever a História. Factos, em toda a sua crueza:

«Os brancos iam às pretas. […] As pretas tinham a cona larga e essa era a explicação para parirem como pariam, de borco, todas viradas para o chão, onde quer que fosse, como os animais. A cona era larga. A das brancas não, era estreita, porque as brancas não eram umas cadelas fáceis, porque à cona sagrada das brancas só lá tinha chegado o do marido, e pouco, e com dificuldade, que elas eram muito estreitas, portanto muito sérias, e convinha que umas soubessem isto das outras.» Isabela vivia na Matola. A Matola, oficialmente designada Vila Salazar, era um arrabalde de Lourenço Marques (em 1980 foi integrada na cidade de Maputo). Quando Isabela ali viveu era um sítio de passagem a caminho da fronteira da África do Sul. Foi lá que os massacres de 7 de Setembro de 1974 se fizeram sentir com maior intensidade: «a negralhada perdeu o freio […] chacinou, cega, tudo o que era branco: os machambeiros e família, os gatos, cães, galinhas, periquitos, vacas brancas, e deixaram-nos agonizando sobre a terra, empapando sangue; salvavam-se as galinhas cafreais de pescoço pelado. E os gatos pretos.» Por exemplo, um dos vizinhos, o marido da Conceição, foi todo desmembrado à catanada antes de ser espalhado no milheiral. Isabela tinha 11 anos, mas não esqueceu.

A Matola não tinha o glamour da Maxaquene, da Ponta Vermelha, da Polana e de Sommerschield. A Matola era um reduto lumpen na zona dos sapais. Foi ali que Isabela cresceu, intuindo o desconcerto do mundo.

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Caderno de Memórias Coloniais - livro, por Isabela Figueiredo

Foi nesta quinta-feira,24 de Dezembro de 2009: na capa do Público, uma chamada para a entrevista que Isabela Figueiredo deu a Alexandra Prado Coelho e que saiu na edição desse dia do jornal, no Ipsilon. Na selecção dos melhores livros de 2009, o Caderno de Memórias Coloniais surgia na posição 14 (em 20), escolhido por Gustavo Rubim, nos seguintes termos:

“Sente-se o abalo que este «Caderno» causa no marasmo literário nacional em passagens como esta: «Foder. O meu pai gostava de foder. Eu nunca vi, mas via-se». Relato cru do racismo português em Moçambique no fim do Império, memória do amor de uma filha pelo corpo do pai, história de traição a uma ‘verdade’ que morreu com a morte do colonialismo. Um texto parcial, violento, escrito como se escrevem cadernos: com o fantasma da verdade sempre ao lado. Isabela Figueiredo afirma-se escritora, num país onde só proliferam ‘autores’, esses manequins de vender autógrafos.”

Na resenha ao livro, com o título «Uma estátua de culpa», Eduardo Pitta, que lhe dá 4 estrelas, di-lo «uma obra imprescindível para compreender o sentido (ou sem sentido) da nossa presença em África». E conclui: «Há muito pouca gente a escrever como ela».

Quanto à entrevista a Alexandra Prado Coelho, «peça de resistência» dessa edição do Ipsilon, saiu com o título «O colonialismo era o meu pai» e é impossível resumi-la, tal a força que dela emana: a força de quem continua, por outros meios, a escrever o Caderno de Memórias Coloniais. Aqui, por agora, apenas um excerto:

O meu pai foi um mediador entre mim e a realidade. Eu conhecia a realidade através dele e do mundo que ele trazia até mim. Portanto só posso culpar o meu pai. O colonialismo é o meu pai, a discriminação é o meu pai, porque foi ele que eu vi fazer isso.

— extractos retirados deste blog

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O Contributo da Literatura Oral no ensino-aprendizagem da língua portuguesa

O Contributo da Literatura Oral no ensino-aprendizagem da língua portuguesa (1)

0.  Mbila e o coelho, uma história para todas as idades como introdução

Mbila e o coelho, uma história para todas as idades é um conto da autoria do escritor moçambicano Rogério Manjate. É a história de uma menina chamada Mbila, habituada a ouvir histórias tradicionais africanas contadas pela mãe. Um dia, contada mais uma história em que o coelho aparecia como protagonista, caracterizado, geralmente, como esperto, aplicando trapaças aos outros animais, Mbila, criança que era, reteve aquela história, como aliás fez com todas as outras, enfim, a história ficou povoando a imaginação da menina Mbila. Acontece que, no dia seguinte, de regresso da escola, Mbila depara-se com um coelho em casa, idêntico ao das histórias que a mãe contara. Aqui inicia uma “relação” de amizade que Mbila vai alimentar em relação ao animal, convicta de que aquele coelho era o mesmo das histórias que a mãe contara, facto que ditou, por exemplo, que ela passasse a questionar o animal sobre a razão das trapaças que o mesmo passava a vida a aplicar aos outros animais[2].

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REVISTA ‘TEMPO’ N.º 36 - L. MARQUES - MOÇAMBIQUE

REVISTA ‘TEMPO’ N.º 36   -  L. MARQUES - MOÇAMBIQUE

@XicoNhoca

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REVISTA ‘TEMPO’ N.º 35 - L. MARQUES - MOÇAMBIQUE

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REVISTA ‘TEMPO’ N.º 34 - L. MARQUES - MOÇAMBIQUE

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REVISTA ‘TEMPO’ N.º 33 - L. MARQUES - MOÇAMBIQUE

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Ouça aqui a nova ‘LM Radio’. Lembra-se? Emitia em inglês a partir de L. Marques (Maputo)

Parte da equipa, em 1975, fundaria na África do Sul a Radio 5

Pode escutar aqui

em directo via Internet a nova ‘LM Radio’

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O palhaço - a opinião de Mário Crespo, Jornal de Notícias, Portugal

O palhaço
2009-12-14

O palhaço compra empresas de alta tecnologia em Puerto Rico por milhões, vende-as em Marrocos por uma caixa de robalos e fica com o troco. E diz que não fez nada. O palhaço compra acções não cotadas e num ano consegue que rendam 147,5 por cento. E acha bem.

O palhaço escuta as conversas dos outros e diz que está a ser escutado. O palhaço é um mentiroso. O palhaço quer sempre maiorias. Absolutas. O palhaço é absoluto. O palhaço é quem nos faz abster. Ou votar em branco. Ou escrever no boletim de voto que não gostamos de palhaços. O palhaço coloca notícias nos jornais. O palhaço torna-nos descrentes. Um palhaço é igual a outro palhaço. E a outro. E são iguais entre si. O palhaço mete medo. Porque está em todo o lado. E ataca sempre que pode. E ataca sempre que o mandam. Sempre às escondidas. Seja a dar pontapés nas costas de agricultores de milho transgénico seja a desviar as atenções para os ruídos de fundo. Seja a instaurar processos. Seja a arquivar processos. Porque o palhaço é só ruído de fundo. Pagam-lhe para ser isso com fundos públicos. E ele vende-se por isso. Por qualquer preço. O palhaço é cobarde. É um cobarde impiedoso. É sempre desalmado quando espuma ofensas ou quando tapa a cara e ataca agricultores. Depois diz que não fez nada. Ou pede desculpa. O palhaço não tem vergonha. O palhaço está em comissões que tiram conclusões. Depois diz que não concluiu. E esconde-se atrás dos outros vociferando insultos. O palhaço porta-se como um labrego no Parlamento, como um boçal nos conselhos de administração e é grosseiro nas entrevistas. O palhaço está nas escolas a ensinar palhaçadas. E nos tribunais. Também. O palhaço não tem género. Por isso, para ele, o género não conta. Tem o género que o mandam ter. Ou que lhe convém. Por isso pode casar com qualquer género. E fingir que tem género. Ou que não o tem. O palhaço faz mal orçamentos. E depois rectifica-os. E diz que não dá dinheiro para desvarios. E depois dá. Porque o mandaram dar. E o palhaço cumpre. E o palhaço nacionaliza bancos e fica com o dinheiro dos depositantes. Mas deixa depositantes na rua. Sem dinheiro. A fazerem figura de palhaços pobres. O palhaço rouba. Dinheiro público. E quando se vê que roubou, quer que se diga que não roubou. Quer que se finja que não se viu nada.

Depois diz que quem viu o insulta. Porque viu o que não devia ver.

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‘As Noites Longas do FM Estéreo’ - algumas das ‘estórias’ com disco ao meio

As Noites Longas do FM Estéreo - 1986 - Textos retirados daqui

A fila

Estive duas horas na fila do hospital.
Quando atingi o guichet a empregada informou-me ter estado na bicha errada.
Aguardei mais uma hora e meia frente a outro balcão.
Quando disse que era uma marcação para ortopedia, a funcionária, desdenhosa, indicou-me o guichet ao lado.
Duas horas depois um empregado careca pespegava-me no nariz um cartão “ENCERRADO”.
Gritei “Estou a ficar doido com esta demora e com esta incompetência!!! Isto é coisa de malucos ou quê?!?”.
Foi então que o empregado sorridente me elucidou:
“Neuropsiquiatria?…guichet n.º 7!!!

O Derrotado

Liguei a televisão. Queria assistir aos resultados das eleições legislativas.
Refastelei-me no sofá e bebericando um gole de bom café, prestei atenção.
“Não restam dúvidas que estas eleições foram uma grande vitória para nós” - dizia um.
“Perdão” - ripostou outro de imediato - “a linguagem dos números é bem clara: ganhámos com grande destaque”.
O terceiro não se conteve e atacou:
“Na minha opinião estão ambos enganados. Se há vencedores a destacar só podemos ser nós!”…
“Nada disso meus senhores” - afirmou, categórico, o quarto representante partidário - “o meu partido subiu…e de que maneira!”

Nessa altura não aguentei mais e desliguei a televisão…
Senti que, afinal, devia ser eu o derrotado!

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