
Limpar Portugal
Este país mais não aguenta, de patas no ar ficou, à mercê da muita escumalha que o carrega.
Estamos de acordo. Este País precisa de limpeza. Mas não pelos mesmos que o sujam e afundam.
É que, antes de limpar, convém não sujar. Não falo apenas de limpar as matas, mas o país em si, o seu tecido social e político, e a todos os níveis. Não são os que hoje lançam campanhas propagandísticas de limpeza, os mesmos que ontem, hoje e sempre, conspurcam?
Limpar Portugal.
Da escória. De malfeitores e corruptos. Da micro à macroescala. Da pequena criminalidade à grande corrupção.
E isto, envolve limpar e livrar o País daqueles que há trinta e cinco anos o sujam, e vivem à custa deste chão que dizem pretender limpo num gritante ‘é fartar vilanagem’.
Limpar, sem tibiezas, a nação, de toda uma classe de políticos e gestores, públicos ou não, de administrativos e administradores, sejam da pretensa justiça ou doutros sectores, como os supervisores do banco central, que mais não foram do que facilitadores de toda uma desenfreada corrupção e crimes financeiros de alto gabarito.
Limpar. Varrer o país de toda uma série de larvas e vermes que comem o pouco que resta da carne e da alma da que já foi outrora uma pátria orgulhosa e que hoje olha o futuro com temor.
Limpar pela vassourada, política ou não, com as mãos, nuas ou não, toda uma clique de encobridores, de mestres da aldrabice informativa, e que se gabam até, despudoradamente, de construir e vender uma imagem de ministro ou de presidente, como quem anuncia e vende um detergente.

Mas falamos demais em limpar e em limpeza, a quem já está habituado à sujidade.
E neste tempo sujo, de sujos, porcos e maus, de políticos xico-espertos, de agiotas públicos, de malabaristas partidários, de ciganos que aterrorizam autoridades e segurança social, neste tempo, dizia, até já é perigoso pensar, quanto mais falar, ou falar alto e apelar à limpeza.
‘Crimideia’ dizia no seu romance futurista 1984 o escritor britânico George Orwell sobre o medo social de pensar e verbalizar. E bem dizia também o jô Soares, o Gordo, da TV Globo, recordam-se? - ‘posso falar o que eu acho?’ ‘Pode, mas fala baixo’.
Portugal deixa hoje transparecer, cada vez mais, essa imagem de asfixia, uma asfixia de pensamento, de comunicação e de informação. E de um certo terror também, medo do marginal, do assaltante impune tolerado pelo Estado, e de terror do Estado, que sabe para os seus fins inconfessáveis amedrontar com o papão do terrorismo, mas que é ele mais terrorista ainda perante o seu próprio cidadão. Para que esta sujidade perdure.
Neste país que sujaram, até falar se tornou pois, perigoso. Falar e denunciar de uma forma que não seja aquela, ‘politicamente correcta’.
Perante os novos controladores do pensamento, da fala, da notícia, da comunicação, do que devemos ou não dizer ou fazer, do que ganhamos e gastamos e temos que pagar ao Estado, constatamos tristemente que a ‘tenebrosa’ PIDE de outros tempos, e que legitimou revoluções, cravos e cravas, não passava afinal de um grupelho de meninos de coro que davam uma galheta ou uns safanões avulso.
O que é que legitimará então hoje em dia, esta sujidade toda, em resposta, em reacção corente e legítima?
Até onde é que, social, psicologica, e estruturalmente, o direito à defesa deste ‘estado de direito’ é diferente do direito à defesa da então ‘Nação’ e ‘Pátria’ argumentada pelos salazaristas?
E também, consequentemente, onde está a diferença no direito, então, à indignação e à revolta, o direito à ‘limpeza’, seja ela qual for? Que, só é ilegal, se não for bem sucedida, como a História amíude o demonstra.
Nem mais me cabe dizer, nem das formas de limpeza deste país. Só posso estar de acordo: urge LIMPAR PORTUGAL. Desculpem… só estava a pensar alto… não disse nada.
Paulo Oliveira
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