
Basil Davidson: Espião, resistente anti-fascista, repórter e historiador de África
Basil Risbridge Davidson não foi um santo, tipo o que evoca a figura do herói Ernesto Che Guevara. Não foi um Tarzan, deambulando pelas selvas de África, nem tão-pouco um missionário de uma estranha confissão religiosa que evangelizou o continente à expensa da sua terra, da sua cultura, sangue e riqueza.
Não foi um neo-colonialista, que em nome do FMI ou do Banco Mundial passava a prescrever receitas expiradas para todas as enfermidades africanas. Antes, Davidson foi um intelectual comprometido, que estudou e escreveu honestamente sobre África e os seus povos, sobre a sua história ancestral e contemporânea, sobre os seus ancestrais; sobre lideres africanos convictos tais como Samora Machel e criminosos como Mobutu Sesse Seko.
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A aliança de Marcelo Caetano com os racistas sul-africanos e rodesianos para impedir as independências de Angola e Moçambique.
por Nicole Guardiola, revista África 21
No inicio de 1974, Portugal estava à beira de perder o controlo da guerra em Angola e Moçambique e preparava-se para transferir para a África do Sul a capacidade de dirigir e orientar o uso das forças militares para «erradicar o terrorismo da África Austral».
É o que se depreende da análise dos documentos oficiais recentemente descobertos e relativos a uma aliança secreta estabelecida em 1970 entre os Governos de Portugal, África do Sul e Rodésia. Aliança que ficou escondida de todos ou quase todos os que participaram na guerra, mas que projecta uma luz diferente – e assustadora – sobre os acontecimentos que antecederam a Revolução portuguesa de Abril de 1974, as independências de Moçambique e Angola, e sobre os conflitos que dilaceraram estes dois países até à queda do regime racista sul-africano.
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O periódico britânico ‘The Guardian’ diz ter obtido documentos secretos. Segundo o jornal, Israel tentou vender armas ao regime do apartheid.
O jornal britânico “The Guardian” informa em uma reportagem desta segunda-feira (24 de Maio 2010) que obteve documentos secretos que mostram que agentes de Israel tentaram vender armas nucleares ao regime do apartheid na África do Sul, numa prova de que o país mantém armas nucleares em seu arsenal.
Os documentos são minutas de reuniões realizadas em 1975 entre o ministro da Defesa da África do Sul, PW Botha, e sua contraparte israelense, Shimon Peres, hoje presidente de Israel. Quando perguntado sobre mísseis do arsenal israelense, Peres responde dizendo que é possível obtê-los “em três tamanhos diferentes”.
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“Não tenho a mínima dúvia em afirmar que se tratará de um marco relevante e incontornável da literatura angolana”, afirma Orlando Castro
«Aerograma», o livro sobre a vida de um expatriado em Angola, será lançado este ano. O autor, Afonso Loureiro, é engenheiro geógrafo e viveu e trabalhou em Angola, país cuja vivência foi partilhando, tentando perceber e explicar como são os angolanos e as suas tradições aos olhos dos estrangeiros. O título do livro é uma palavra envolta em cores e memórias africanas e remete de imediato para o sentimento de separação e partida para uma terra desconhecida e distante, ao mesmo tempo que simboliza uma união com os que ficaram em casa, como o foi para os milhares de militares mobilizados para a guerra ultramarina de há quatro décadas.
Ao longo de dois anos escreveu artigos diários no blogue Aerograma, que agora são usados como matéria-prima para um livro onde traça o seu percurso em Angola, descrevendo o país e as suas gentes ou revisitando memórias de quem lá viveu antes. O choque cultural sofrido em Luanda, cidade difícil, ainda a sofrer as consequências sociais da guerra civil, com corrupção generalizada e uma verdadeira lei da selva a reger os comportamentos dos seus habitantes é uma parte substancial da obra.
Embondeiros e candongueiros, mais-velhos e marcas de outros tempos, lado-a-lado com a tentativa de compreender Angola como país enchem as páginas com factos, histórias e lendas, criando uma imagem do que é a vida na Angola actual.
Mais do que uma descrição, é uma tentativa de perceber o que há em África e, em especial Angola, que enche as memórias de milhares de portugueses de forma tão marcante.
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in pambazuka.org
2008-04-19, Edição 1
Neste primeiro número do Pambazuka News em língua portuguesa, Jacques Depelchin fala-nos de um intelectual orgânico como Aquino de Bragança,num ensaio biográfico e apaixonante.
Num contexto em que a globalização deixa cada vez menos espaço para pensar fora dos paradigmas ditados pelo sistema, é crucial lembrar uma personalidade que conseguiu fazer da sua vida um exemplo de fidelidade à politica emancipativa, sem cair, como gostava repetir, no Marxismo de cartilhas.
Não era o único, houve outros, como por exemplo, Mário Pinto de Andrade, que se lançaram no projecto de libertação da África colonizada por Portugal, decididos à não cair na armadilha (quer dizer submissão) às regras dos partidos comunistas das metrópoles dos colonizadores.
A grande paixão politica e intelectual do AB era de sempre procurar respostas singulares aos desafios não só do momento, mas também do futuro. Queria fazer do CEA não só uma instituição dedicada à resolver os problemas imediatos de Moçambique, como, por exemplo, a falta de quadros, mas também procurar aliados em zonas, países que pudessem apoiar num processo de emancipação que ele considerava crucial para África Austral, mas também do mundo inteiro. Partilhava a ideia (que se podia ler num cartaz daquela época) que o Apartheid era crime contra a humanidade.

Para ele o projecto emancipativo necessitava romper com hábitos de pensar que a humanidade era só aquela que vinha directamente do iluminismo ou de qualquer outra ideologia que tratava os Africanos e dentro deles, sobretudo os mais pobres, camponeses, operários, crianças, mulheres. BREF, como costumava dizer, a obrigação/fidelidade era de ser solidário com os discriminados/danados da Terra. O projecto emancipativo, pertencia ao mundo inteiro e tinha que ser entendido como tendo a sua origem nos primórdios da humanidade; não podia ser mantido refém de qualquer modo de teorização ou de conivência politica e/ou ideologica. Neste sentido, ele pertencia aos que pensavam que o comunismo não pertencia ao modelo que surgiu nos últimos séculos, mas sim aos que sempre viveram, sem equívocos, com base nos princípios de solidariedade. Numa altura em que a cooperação Sul-Sul não se tinha tornada moda, ele convidou um estudante Brasileiro (1981-84) para vir pesquisar (para doutoramento) sobre a historia de Moçambique. Um dos frutos desta visão saiu em 2007 com a publicação do livro de Valdemir Zamparoni: De Escravo a Cozinheiro: Colonialismo e racismo em Moçambique (EDUFBA/CEAO, Salvador, Brasil). Seremos capazes de continuar nos seus traços fora das cartilhas de historia? Descartilhando a historia da África para que seja fiel a historia da humanidade?
Sou anti-anti-comunista
Assim se definia politicamente Aquino de Bragança. Ele nasceu em Goa onde, aos 15 anos de idade, tornou-se membro dum dos múltiplos partidos comunistas. Em 1948 seguiu para Moçambique, enquanto o seu amigo Pio Pinto parou em Mombasa. Em 1949 vai para França, onde encontrara Marcellino dos Santos, futuro grande amigo.
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Ana Magalhães e Inês Gonçalves fizeram juntas Moderno Tropical, obra decisiva para a memória da presença portuguesa em África. A Tinta da China editou, com o apoio da Direcção-Geral das Artes, Instituto Camões e Fundação Luso-Brasileira. Moderno Tropical recupera o acervo arquitectónico moderno, edificado em Angola e Moçambique entre 1948 e 1975.
O trabalho de investigação e de fotografia de uma arquitecta e uma fotógrafa mostram-nos a melhor arquitectura moderna portuguesa, que incide sobre quatro cidades, duas de Angola (Luanda e Lobito) e duas de Moçambique (Lourenço Marques e Beira), as impressionantes cidades modernistas que se construíram de raiz. Um retrato do estado em que os edifícios se encontram e da utilização que as populações actualmente lhe atribuem. com um capítulo dedicado a doze obras icónicas.
Oito arquitectos merecem destaque, entre eles o moçambicano Amâncio ‘Pancho’ Miranda Guedes, [n. Lisboa, 1925; viveu em Lourenço Marques entre 1928-75, e em Joanesburgo entre 1975-90.] objecto de retrospectiva recente no CCB. Pancho está representado com quinze obras, todas em Lourenço Marques: Edifício Abreu, Hotel Tamariz, Padaria Saipal, Restaurante Zambi, Edifício Man George, Edifício Octavio, Edifício Mocargo, Edifício Dragão, Edifício Prometheus, Edifício Tonelli, Edifício Parque, Edifício Leão Que Ri — tão associado à minha história pessoal; hoje completamente adulterado, com lojas no lugar das antigas garagens abertas, marquises e grades nas varandas —, Edifício Simões Ferreira, as Casas Gémeas da família Matos Ribeiro e as Casas Gonzaga Gomes. As sequelas da guerra civil e a usura do tempo não pouparam os edifícios, mostrados no seu estado actual.
No território africano sob domínio colonial português, menos sujeito à pressão dos cânones culturais do Estado Novo e ao mesmo tempo com mais necessidades de construção urbana, houve espaço para que os arquitectos portugueses pudessem explorar livremente o Movimento Moderno. A expressão desta arquitectura em África, nos anos 50 e 60, traduziu não só os ensinamentos da Carta de Atenas, de Le Corbusier, mas também as formas modernas desenvolvidas no Brasil. É há procura desse denominador comum - tropical – que Ana Magalhães parte com Inês Gonçalves numa viagem a Luanda, Lobito, Maputo e Beira, onde fazem um levantamento fotográfico dos edifícios aqui tratados. Entre texto de investigação e imagens, ficamos a conhecer o belíssimo trabalho de oito arquitectos portugueses, que no contexto colonial africano puderam aproximar-se da vanguarda da arquitectura moderna, enquadrada no que ficou conhecido como Movimento Moderno.
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Opinião - por Paulo Oliveira
Ainda a propósito do livro de Sérgio Vieira ‘Participei, por isso testemunho…’
Há artistas que passam e não esquecem. Não, não me refiro aos do cinema, teatro, ou circo. Há-os muito mais acrobatas e que como carraças se agarram aos folhos da História, como estadistas ou como meros escrivões de um regime.
Penso a propósito disto de papéis da vida, nuns versos de um poeta e astrónomo, escritos na Pérsia do século XII, Omar el Khayyam [Omar, O Construtor de tendas - em tradução]. Curiosamente, o nome do hotelzito onde acabei por ficar uns quatro dias há cerca de uma dezena de anos, em Mahalla Al-Koubra, Gharbia, no centro do delta do Nilo, ao norte do Cairo: ‘Nós somos as marionetas; E o Céu o grande marionetista; Na realidade e não apenas em metáfora; Por um breve momento; Surgimos sobre o palco; Depois, um por um, retornamos; À caixa. Do nada…’
Antes de descobrir e ler o Samarcanda, de Amin Malouuf, que muito gira em torno da vida do citado poeta e astrónomo persa, conheci essa visão de Khayyam através de uma das obras de um físico e escritor canadiano contemporâneo, o Hubert Reeves [Um pouco mais de azul; Poeira de estrelas; e ‘Hora de se inebriar’ / Hora do deslumbramento - numa das traduções portuguesas]. Reeves inebria-nos e deslumbra-nos com todo o Universo espectacular, o Cosmos sem fim, os contorcionismos das partículas, da matéria, do tempo. Mas aqui e agora, interessa-nos sobretudo o contorsionismo das pessoas e das suas ‘estórias’.
Por vezes os pretensos cronistas preferem uma visão algo caleidoscópica, extremando uma certa inebriedade, de certa forma fazem-lo conscientemente. Pegam na estória e reviram-na, e ela enrola-se e desenrola-se, ensarilham-na numa memória espiralada e confusa, transmutam a memória colectiva que se pretende confundir, pela omissão, pelo apagão, pela deturpação, pela desculpa habilidosa, por vezes quase conseguida.
Vem isto a propósito de mais alguns episódios da grande ‘estória’ recente moçambicana e, no fundo, algo comum à grande ‘estória’ dos novos países da África Austral que falam o português. Quer o cabeça de série nesta peça se chame Dudu ou Guebusiness. Ou ministros mais ou menos recentes.
E tal estória só demonstra como o poeta, matemático e astrónomo persa do século XII, o tal Omar Khayam, escreveu certo naqueles poucos versos de um dos poemas do Rubáiyát, um livro em que reflecte sobre a natureza humana, enaltece o vinho e, no fundo, a inebriedade pessoal ou colectiva. Retrata não só o papel de cada um, o efémero dos homens, mas também, afinal, o das verdades e o da história feita. E constatamos, como esses papéis por vezes mudam sem despudor, na história actual. Para que o artista permaneça.
E quando os artistas não obedecem ao guião? Mu
da-se o artista. Daí, o revolucionário que perece. Ou o revolucionário que é absorvido pelo regime global. Pela ‘nova ordem mundial’. O revolucionário trasmuda-se em homem de negócios, em corrupto vendilhão do seu país e gentes. Submete-se aos rabínicos ‘alquimistas’ da alta finança internacional, aos grandes marionetistas do presente, que da Galileia infestaram Nova Iorque e os vários centros do Poder.
Encontramos estes artistas nas suas duas estirpes. Em Moçambique, Machel, tal como Salazar, surgiu, foi idolatrado por alguns, amado por muitos, odiado por muitos outros. Inflexível, incorrupto, impoluto. Podia-se não gostar do homem mas há que lhe reconhecer a verticalidade, mesmo que brutal, a honradez e a honestidade na defesa daquilo a que se propôs, a sua terra a sua gente, mesmo que por ínvios caminhos. Foi ’substituido’. Quanto à outra estirpe, a dos mutantes, é a dos ’sobreviventes’, os novos e actuais cabeças de cartaz, na ‘pérola do Índico’, ou à beira da baía de S. Paulo de Luanda. Claro que é deles que falamos. Que mais dizer destes novos vendilhões do templo? Talvez seja a senda que encontraram para entrarem e reentrarem repetidamente em cena e adiarem a ida para o caixote do lixo da História.
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O livro acabado de editar por Sérgio Vieira - nascido na próvíncia nortenha de Tete, irmão do ’socialite’ português José Castelo Branco, membro dos estudantes do Império, revolucionário de mão cheia e de alguma memória vazia, antigo ministro da Segurança de Samora Machel - “Participei, por isso testemunho…” fala dessas ‘artes’ e ‘artistas’, pode aflorar e ajudar a explicar alguns factos. Mas deixa um vórtice imenso, um abismo de omissões, como aquelas sobre a ‘Operação Produção’ que levou à deslocação forçada e à morte de dezenas de milhares de pessoas. Noutras latitudes chama-se a isso ‘genocídio’ quando interessa politicamente fazê-lo. Não deixa assim, esta obra, de ser um vaso de mau vinho nesta inebriedade colectiva da ‘estória’ contemporânea moçambicana, e não faz jus, decerto, à figura grande de estadista do seu antigo chefe Samora Machel que, apesar dos defeitos, sabia assumir e defender a gravidade do que protagonizava. Mas Vieira passou habilmente de substituível a adaptável sobrevivente nesta nova ordem das coisas.
Assim, escolhida essa via desculpabilizante e amnésica, em vez do rigor que se esperava de tal escrito, resta o humor, do seu irmão e também artista, mas de outras lides, o José Castelo Branco, e as suas diatribes em Portugal.
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