24 - Mar - 2010, por: Paulo Oliveira -
Secções:
XicoNhoca,
25 Abril - África e Descolonização,
Autores e Jornalistas,
África - História,
Combatentes e Guerra Colonial,
Cultura Lusófona,
Denúncia - Reportagem,
Destaque,
Geral,
Moçambique - Ontem e Hoje, História
Opinião - por Paulo Oliveira
Ainda a propósito do livro de Sérgio Vieira ‘Participei, por isso testemunho…’
Há artistas que passam e não esquecem. Não, não me refiro aos do cinema, teatro, ou circo. Há-os muito mais acrobatas e que como carraças se agarram aos folhos da História, como estadistas ou como meros escrivões de um regime.
Penso a propósito disto de papéis da vida, nuns versos de um poeta e astrónomo, escritos na Pérsia do século XII, Omar el Khayyam [Omar, O Construtor de tendas - em tradução]. Curiosamente, o nome do hotelzito onde acabei por ficar uns quatro dias há cerca de uma dezena de anos, em Mahalla Al-Koubra, Gharbia, no centro do delta do Nilo, ao norte do Cairo: ‘Nós somos as marionetas; E o Céu o grande marionetista; Na realidade e não apenas em metáfora; Por um breve momento; Surgimos sobre o palco; Depois, um por um, retornamos; À caixa. Do nada…’
Antes de descobrir e ler o Samarcanda, de Amin Malouuf, que muito gira em torno da vida do citado poeta e astrónomo persa, conheci essa visão de Khayyam através de uma das obras de um físico e escritor canadiano contemporâneo, o Hubert Reeves [Um pouco mais de azul; Poeira de estrelas; e ‘Hora de se inebriar’ / Hora do deslumbramento - numa das traduções portuguesas]. Reeves inebria-nos e deslumbra-nos com todo o Universo espectacular, o Cosmos sem fim, os contorcionismos das partículas, da matéria, do tempo. Mas aqui e agora, interessa-nos sobretudo o contorsionismo das pessoas e das suas ‘estórias’.
Por vezes os pretensos cronistas preferem uma visão algo caleidoscópica, extremando uma certa inebriedade, de certa forma fazem-lo conscientemente. Pegam na estória e reviram-na, e ela enrola-se e desenrola-se, ensarilham-na numa memória espiralada e confusa, transmutam a memória colectiva que se pretende confundir, pela omissão, pelo apagão, pela deturpação, pela desculpa habilidosa, por vezes quase conseguida.
Vem isto a propósito de mais alguns episódios da grande ‘estória’ recente moçambicana e, no fundo, algo comum à grande ‘estória’ dos novos países da África Austral que falam o português. Quer o cabeça de série nesta peça se chame Dudu ou Guebusiness. Ou ministros mais ou menos recentes.
E tal estória só demonstra como o poeta, matemático e astrónomo persa do século XII, o tal Omar Khayam, escreveu certo naqueles poucos versos de um dos poemas do Rubáiyát, um livro em que reflecte sobre a natureza humana, enaltece o vinho e, no fundo, a inebriedade pessoal ou colectiva. Retrata não só o papel de cada um, o efémero dos homens, mas também, afinal, o das verdades e o da história feita. E constatamos, como esses papéis por vezes mudam sem despudor, na história actual. Para que o artista permaneça.
E quando os artistas não obedecem ao guião? Mu
da-se o artista. Daí, o revolucionário que perece. Ou o revolucionário que é absorvido pelo regime global. Pela ‘nova ordem mundial’. O revolucionário trasmuda-se em homem de negócios, em corrupto vendilhão do seu país e gentes. Submete-se aos rabínicos ‘alquimistas’ da alta finança internacional, aos grandes marionetistas do presente, que da Galileia infestaram Nova Iorque e os vários centros do Poder.

Encontramos estes artistas nas suas duas estirpes. Em Moçambique, Machel, tal como Salazar, surgiu, foi idolatrado por alguns, amado por muitos, odiado por muitos outros. Inflexível, incorrupto, impoluto. Podia-se não gostar do homem mas há que lhe reconhecer a verticalidade, mesmo que brutal, a honradez e a honestidade na defesa daquilo a que se propôs, a sua terra a sua gente, mesmo que por ínvios caminhos. Foi ’substituido’. Quanto à outra estirpe, a dos mutantes, é a dos ’sobreviventes’, os novos e actuais cabeças de cartaz, na ‘pérola do Índico’, ou à beira da baía de S. Paulo de Luanda. Claro que é deles que falamos. Que mais dizer destes novos vendilhões do templo? Talvez seja a senda que encontraram para entrarem e reentrarem repetidamente em cena e adiarem a ida para o caixote do lixo da História.

O livro acabado de editar por Sérgio Vieira - nascido na próvíncia nortenha de Tete, irmão do ’socialite’ português José Castelo Branco, membro dos estudantes do Império, revolucionário de mão cheia e de alguma memória vazia, antigo ministro da Segurança de Samora Machel - “Participei, por isso testemunho…” fala dessas ‘artes’ e ‘artistas’, pode aflorar e ajudar a explicar alguns factos. Mas deixa um vórtice imenso, um abismo de omissões, como aquelas sobre a ‘Operação Produção’ que levou à deslocação forçada e à morte de dezenas de milhares de pessoas. Noutras latitudes chama-se a isso ‘genocídio’ quando interessa politicamente fazê-lo. Não deixa assim, esta obra, de ser um vaso de mau vinho nesta inebriedade colectiva da ‘estória’ contemporânea moçambicana, e não faz jus, decerto, à figura grande de estadista do seu antigo chefe Samora Machel que, apesar dos defeitos, sabia assumir e defender a gravidade do que protagonizava. Mas Vieira passou habilmente de substituível a adaptável sobrevivente nesta nova ordem das coisas.
Assim, escolhida essa via desculpabilizante e amnésica, em vez do rigor que se esperava de tal escrito, resta o humor, do seu irmão e também artista, mas de outras lides, o José Castelo Branco, e as suas diatribes em Portugal.
Share