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Sérgio Vieira apresenta hoje o seu livro “Testemunho”

Sérgio Vieira apresenta hoje seu “testemunho”

“PARTICIPEI, POR ISSO TESTEMUNHO”, é o título do livro de Sérgio Vieira a ser lançado hoje no Centro de Conferências Joaquim Chissano, em Maputo. Segundo um dos prefaciadores, Luís Bernardo Honwana, nesta obra Sérgio Vieira fala das suas origens e da sua infância e adolescência em Tete.

Fala de como abandonou o catolicismo e da sua subsequente militância no movimento estudantil e na Casa dos Estudantes do Império, (…) dos capítulos dedicados às relações entre os movimentos filiados na antiga CONCP (Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas), as negociações que conduziram à assinatura dos Acordos de Lusaka,  a Independência, o dossier Zimbabwe e a Guerra de Desestabilização, entre outras.

Para outro prefaciador, António Almeida Santos  fazia falta este livro. “Que ele sirva de estímulo, a que outros actores dessa independência ganhem nele inspiração para repetir a proeza, e cumprir esse dever. O conhecimento pelas novas gerações do heroísmo dessa gesta é um capital precioso para o orgulho de ter nascido em Moçambique, e a consciência do significado da correspondente cidadania”.

A obra será apresentada por Luís Bernardo Honwana e Rock Choolly.

Maputo, Segunda-Feira, 8 de Março de 2010:: Notícias 

Noite de horror - Lourenço Marques. 1974

Extraído do blog de Francisco Gomes Amorim

A revolução já tinha acontecido em Portugal. A primeira medida tomada, depois de trancafiados na cadeia os responsáveis da PIDE, incluindo os burocratas que ali trabalhavam, foi anunciar a independência das colônias.
Quando? Como? Isso ninguém sabia, mas como os exemplos anteriores de grande parte das independências em África fizeram correr muito sangue, a preocupação geral era grande.
Os africanos há anos, quase há séculos era o que almejavam, ver-se livres do jugo colonial que nunca aceitaram. Hoje são subjugados poder económico. Mas ninguém gosta de jugo. Não só os africanos como todos aqueles que ali viviam e não podiam trabalhar livremente porque as dificuldades criadas pela metrópole a todos pesavam. A uns mais vergonhosamente, mas a todos, economicamente.
Finalmente chegava a independência. Para isso tinham lutado, e era um direito seu inalienável e histórico. Os brancos que tinham ali vivido toda a sua vida, alguns vindos de três, quatro e mais gerações, achavam-se no mesmo direito à independência, à continuação do seu trabalho, das suas vidas, a não perder o que tinham. À paz.
Mas como ia ser essa independência?
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Saiba porque é que Mário Soares ‘ofereceu’ Moçambique à Frelimo - CONFIDENCIAL

Vasco Rato e Paulo Pinto Mascarenhas  / In Jornal “O Independente” 24 Outubro 1997

AO LONGO das próximas semanas, O Independente irá publicar vários documentos inéditos dos arquivos secretos dos Estados Unidos, da República Democrática Alemã e da União Soviética, sobre os acontecimentos que marcaram a África Austral durante a década de 70. Todos estes papéis foram agora finalmente desclassificados, encontrando-se ao dispor dos investigadores nos National Security Archives, em Washington. Neles se revelam alguns dos aspectos mais dramáticos da história da descolonização portuguesa e das guerras civis que se seguiram nas antigas colónias. Demonstram sobretudo algumas das atitudes assumidas pelos principais protagonistas políticos que, na altura, conduziam a política externa dos seus países.
 

21 de Agosto de 1974

Documento do departamento de Estado norte-americano sobre a descolonização de Moçambique, classificado como “secreto” . Nele se dá conta da opinião de Mário Soares, favorável à entrega imediata da colónia à Frelimo. Sem dar qualquer relevância à possível falta de representatividade do movimento marxista moçambicano.

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“Os ataques do inimigo eram uma constante” (Luís Antunes Ferreira, Guiné 1964-1966)

A Minha Guerra

“Os ataques do inimigo eram uma constante”

Luís Ferreira foi para a guerra rapaz e por lá se fez homem. Escapou ileso no corpo mas não arrumou as memórias. São muitas. Tristes e felizes.

É a bordo do navio ‘Niassa’, à saída de Lisboa, a 8 de Outubro de 1964, que começa a nossa primeira grande aventura. Fomos transportados nos porões sem quaisquer condições, em beliches sem roupa nas camas e a comida era-nos servida no convés em marmitas de campanha. Os banhos eram em casas de banho improvisadas, com a água bem fria. Passaram-se seis dias de viagem.

Éramos rapazes preparados para a desgraça a caminho da Guiné. À chegada a Bissau as péssimas condições mantiveram-se: As nossas cadeiras para a refeição eram o chão e algumas vezes até saltavam pequenos sapos para as marmitas. Daqui fomos para a ilha do Como, bastante conhecida pela célebre ‘Operação Tridente’. Com a nossa chegada rendemos uma companhia que tinha ficado na ilha após ter terminado a operação. Sem quaisquer condições tivemos de viver em abrigos e casernas feitas com troncos de palmeiras e cobertas com chapas. Na ilha não havia água doce. Existia um poço de água salobra com a qual tínhamos de tomar banho com a ajuda de um balde. Lavávamos a roupa numa celha feita de um barril de cem litros, que vinha de Catió nas lanchas. Tínhamos que aproveitar a maré.

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“Tive 98 acções de fogo, quase desarmado” (José Rafael de Almeida, Angola 1965-1967)

A Minha Guerra: Ataques em Angola

“Tive 98 acções de fogo, quase desarmado”

A figura magra não o impediu de ser dado como apto para o serviço militar. Regressou com uma Cruz de Guerra e o título de herói nacional.

Sou apurado para todo o serviço militar com 43,5 quilos de peso, que é o que ainda hoje tenho. Naquele tempo apuravam tudo. Mandam-me para o Hospital da Estrela, fazem-me exames, dão-me uma injecção que me dava vómitos, ligam-me a eléctricos e o médico, que era um major, disse-me: “Sim, senhor, tens aqui qualquer coisa no parietal direito mas nós precisamos é de malucos lá em África”. E assim sou mobilizado, em Agosto de 1963.

Vou para o curso de sargentos milicianos em Tavira, tinha uma nota que não me dava mobilização e venho dar instrução a soldados para Elvas. Estavam lá mais rapazes, milicianos tal como eu, e naquele tempo o Alentejo era de facto muito pobre e os milicianos, como tinham estudos, eram assediados pelas meninas de Elvas. Os da terra não levavam aquilo à paciência. Eu era o único que não tinha lá namorada. Estava para casar. Um dia, já em 1965, estou de ronda à cidade, faltavam–me seis meses para acabar o serviço militar, quando um indivíduo passa por mim e diz “olha mais um filha da p…” Eu, como autoridade que ronda a cidade, dei-lhe voz de prisão. O tipo reage e dá-me um soco na cara. Eu levanto a bota da tropa, que é um bocadinho pesada, e dei-lhe um pontapé nas ‘jóias de família’. Onde eu me fui meter. Era filho da amante do meu comandante. Divisas abaixo, fui mobilizado para Angola, com três meses de casado.

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“Jipes eram blindados com chapa de bidões” (Joaquim Gaspar, Guiné 1962-1964)

A Minha Guerra: Missão no Sul da Guiné

“Jipes eram blindados com chapa de bidões”

Tragédia. Para prevenir os ataques do inimigo colocávamos minas no exterior do aquartelamento. Uma delas explodiu e matou um furriel.

O meu contacto com o serviço militar começou a 19 de Agosto de 1961, data em que dei entrada no Centro de Instrução e Condução Auto, na Figueira da Foz, para tirar a especialidade de condutor. Depois da recruta, passei pela artilharia pesada, onde fiz a escola de cabos e vi morrer o primeiro camarada de armas. Estávamos no alto da Serra da Boa Viagem, num exercício de fogo real, com lançamento de obuses, quando uma munição rebentou à saída do cano. O soldado que estava a municiar o canhão morreu logo. Os outros ficaram feridos.

No final da especialização, em Dezembro de 1961, enviaram-me para o Batalhão de Telegrafistas, em Lisboa. Fui mobilizado para Angola mas, a conselho de um capitão amigo, decidi gozar os 10 dias de férias a que tinha direito antes de ir para o Ultramar e quando me apresentei no quartel já os camaradas tinham partido. Ainda me distribuíram a farda para ir de avião para Luanda mas acabei desmobilizado no mesmo dia. Foi sol de pouca dura. Duas semanas depois, acabei mobilizado para o Batalhão de Caçadores Especiais 356, que já estava na Guiné e tinha falta de pessoal. A partida para Bissau aconteceu a 25 de Fevereiro de 1962, no barco comercial ‘Manuel Alfredo’. Comigo iam mais 12 militares, todos condutores. Chegámos no dia 6 de Março.

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DIGITAIS - MOZAMBIQUE FROM COLONIALISM TO REVOLUTION, 1900-1982

DIGITAIS - MOZAMBIQUE FROM COLONIALISM TO REVOLUTION, 1900-1982

ALLEN ISAACMAN AND BARBARA ISAACMAN (1983)

@XicoNhoca

DIGITAIS - CABORA BASSA (1975)

DIGITAIS - CABORA BASSA (1975)

KEITH MIDDLEMAS, 1975

@XicoNhoca

“O heli onde eu seguia foi atingido com 26 tiros” (José António, Moçambique 1972-1974)

A Minha Guerra: Comissão na Força Aérea

“O heli onde eu seguia foi atingido com 26 tiros”

Socorro. A nossa missão era deixar as tropas nas zonas de combate e retirar os feridos e os mortos. Estávamos desejosos do fim do conflito.

Fui mobilizado para Moçambique a 2 Março de 1972. Na Beira fiquei a aguardar para onde seria destacado e logo na primeira noite tive de queimar o colchão da camarata: estava cheio de piolhos e fiquei todo picado. Mandaram-me para a Base Aérea 5 (BA5), em Nacala, onde estavam os aviões bombardeiros T6, os Dornier e os Fiat, e depois para o Aeródromo Militar 52 (AM52), em Nampula, onde se encontravam os helicópteros.

Fazíamos as rendições individuais e o único camarada de curso que partiu comigo foi o 1º cabo Mota, que ficou na ferramentaria. Eu fui para a linha da frente, para o destacamento de Mueda, no AM51. Era o pior sítio. Havia um painel pintado com uma caveira enorme que dizia: ‘Bem-vindos a Mueda. Nesta terra trabalha-se, luta-se e morre-se’.

A 13 de Março participei na primeira operação, que consistia no transporte de helicóptero de tropas do Exército para um ataque a uma base da Frelimo, no planalto dos Macondes, em Mueda. Eu era mecânico dos Alouette III, onde seguiam, para além do piloto, mais cinco militares. Nas operações ia sempre um grupo de seis helicópteros. Aproximávamo-nos do solo, mas não chegávamos a aterrar. Os militares saltavam, nós voltávamos ao aeródromo e mais tarde íamos buscá-los.

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“O inimigo causou-nos 44 feridos numa noite” (Alfredo Oliveira, Guiné 1967-1969)

A Minha Guerra: Ataques na Guiné

“O inimigo causou-nos 44 feridos numa noite”

Atribulada. Logo no início da comissão caímos numa emboscada. Seguiram-se outros ataques, mas só fui atingido uma vez por um estilhaço.

Logo a começar, entre Julho e Agosto de 1967, tive uma experiência que me marcou para sempre. Quando íamos levar géneros alimentares a uma outra companhia caímos numa emboscada. Resultado: três feridos graves, que acabaram por morrer mais tarde em Teixeira Pinto. As vítimas não eram da minha companhia mas sim da 2ª. Ainda houve um camarada que desapareceu. Andou perdido durante o dia e a noite, até que adormeceu. Foi encontrado no dia seguinte, a 50 metros do quartel. Mal ele sabia que estava tão perto.

Eu não sofri qualquer ferimento mas fiquei muito assustado e acabei por ir para Bissau, para a consulta externa. E desde aí consegui ficar sempre no quartel, mas isso não me impediu de viver outras experiências traumatizantes. A minha companhia foi destacada para Cacheu a 26 de Janeiro de 1968, e aí é que começou o perigo. Um dia, quando estava a regressar de Bachile, foi atacada durante a noite e teve de recuar. Houve cinco mortos e 14 feridos. Desde essa data, estivemos pouco mais de 20 homens em Cacheu a tomar conta do quartel até ao dia 1 de Fevereiro, quando chegou um reforço feito pelo pelotão que veio de S. Domingos.

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“Tivemos de almoçar com quem nos atacou” (João Simões, Angola 1974-1975)

A Minha Guerra: Independência de Angola

“Tivemos de almoçar com quem nos atacou”

Entrega. Estive no quadrado da morte, mas acabei por viver dias piores em Luanda. Custou-me ter de entregar quartéis e material ao inimigo.

A minha Companhia, formada por 135 homens, rumou a Angola num avião militar. O voo até Luanda demorou 14 horas. Fomos para Grafanil e seguimos depois de comboio até Teixeira de Sousa. Foram dois dias e duas noites de aventura, percorrendo centenas de quilómetros e alimentados a rações de combate, com medo que a composição fosse atacada. Mas não houve incidentes.

De Teixeira de Sousa rumámos em coluna militar até Cazombo, no Leste de Angola, onde estava estacionado o batalhão de que íamos depender. Depois fomos para Caianda, substituir uma companhia que regressou à Metrópole. Caianda faz fronteira com a Zâmbia e era uma zona de infiltração da FNLA. Era o chamado quadrado da morte. Estávamos a 650 quilómetros de Moçambique, 300 de Cazombo e a três mil de Luanda.

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Isabela Figueiredo: “O colonialismo era o meu pai” (entrevista integral, Ipsílon/Público)

Caderno de Memórias Coloniais. Isabela Figueiredo: “O colonialismo era o meu pai”. 24.12.2009 - Alexandra Prado Coelho

Os retornados “tinham um acordo tácito para não falar”. Isabela Figueiredo quebrou esse acordo. “Caderno de Memórias Coloniais” é um dos livros do ano para o Ípsilon

Foi no blog Mundo Perfeito (e agora no Novo Mundo) que os textos de Isabela Figueiredo começaram a aparecer. Escrevia sobre aquilo que durante anos não tivera coragem de enfrentar: a infância em Moçambique, o racismo dos colonos portugueses. E, sobretudo, do pai, essa figura que “trazia o mundo” até ela.

“Caderno de Memórias Coloniais”, editado pela Angelus Novus, é um ajuste de contas com o pai morto. E com muitos retornados vivos. E com os que em Portugal os receberam e os maltrataram não percebendo que eles já tinham sido maltratados. É uma libertação de muita raiva.

Aquilo que conta no seu livro, a violência quotidiana dos brancos sobre os negros em Moçambique - e da forma crua como a conta - é um testemunho raro?

Nunca li nada sobre este assunto, não penso que tenha sido contado antes. Nós, retornados, não falamos disto uns com os outros, por pudor. Eu não tinha com quem falar. Lembro-me do [escritor angolano José Eduardo] Agualusa há 20 anos, depois de eu ter escrito uma coisa muito folclórica, muito suave, sobre Moçambique no “DN Jovem”, me ter dito que eu não tinha contado a verdade. Não lhe disse que achava que ele tinha razão, mas tinha. Eu não estava a contar a verdade, não podia contar a verdade porque havia um pacto de fidelidade com o meu pai. Não podia falar daquelas coisas com o meu pai vivo, sabendo que ele ia ler.

O facto de não pertencer à classe média e média alta da então Lourenço Marques, de ser de uma classe mais baixa, era para si um problema?

A diferença de classes entre portugueses não é uma coisa que me preocupe, é uma coisa que para mim era normal. Eu era a filha do electricista, e gosto dessa ideia. Ouvia o meu pai falar sobre as casas dos senhores da alta, onde ele ia fazer as instalações. O meu pai era um homem pobre, foi para África porque precisava de ganhar dinheiro, estava sempre a dizer-nos que não éramos ricos, éramos remediados. Eu sabia o meu lugar no esquema da sociedade colonial.

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“Colisão em voo matou cinco camaradas” (Fernando Sousa, Moçambique/Angola 1972/74)

A Minha Guerra: Helicópteros em Angola

“Colisão em voo matou cinco camaradas”

Sorte dupla. Fiz duas comissões, mas acabei por assistir ao 25 de Abril quando vim de férias à metrópole. Com isso terei escapado a um acidente.

Parti para Moçambique a 17 de Janeiro de 1972. A minha missão era fazer a manutenção dos aviões. Esta especialidade fazia com que nos dividíssemos e não pertencêssemos a qualquer companhia. A chegada à Base AB7 de Tete marcou-me: o cenário era de guerra. A base era importante, porque dava apoio ao Exército e estava toda vedada. Os T6, aviões de caça a hélice, iam sair em missão para defender Cabora Bassa. Aquelas aeronaves e os Fiat estavam encaixados numa parede de bidões, cheios de areia. Era a sua protecção contra os ataques com bombas e morteiros.

Enquanto lá estive não houve qualquer ataque, mas o mesmo já não posso dizer dos acidentes. Registaram-se duas baixas com um DO27 (um modelo de Dornier). Era um avião de passageiros, de transporte de correio e de alguma carga. Um camarada, com funções iguais às minhas, morreu no avião, com o piloto, num acidente no mato. O meu período de permanência em Tete foi encurtado, porque meti os papéis para o curso de sargentos e vim para a Metrópole frequentá-lo, na Ota, em Setembro de 1972. Tirei depois em Alverca, nas Oficinas Gerais de Material Aeronáutico, um curso de manutenção de helicópteros Alouette III.

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DIGITAIS - PORTUGUESE AFRICA AND THE WEST

DIGITAIS - PORTUGUESE AFRICA AND THE WEST

WIILIAM MINTER (1972)

@XicoNhoca

DIGITAIS - MOZAMBIQUE FRELIMO: MARCELINO DOS SANTOS

DIGITAIS - MOZAMBIQUE FRELIMO: MARCELINO DOS SANTOS

@XicoNhoca

DIGITAIS - DANIEL CHIPENDA

DIGITAIS - DANIEL CHIPENDA

Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA)

@XicoNhoca

Caderno de Memórias Coloniais - por Isabel Figueiredo. Crítica.

Faltava um relato assim, na primeira pessoa. Foi isso que fez Isabela Figueiredo (n. 1963), sem poupar nos detalhes. O seu Caderno de Memórias Coloniais é uma obra imprescindível para compreender o sentido (ou sem sentido) da nossa presença em África. Isabela ainda não tinha 13 anos quando deixou Moçambique. Narrativa mnemónica, portanto. Isenta de nostalgia, vontade de dourar a pílula ou propósito de reescrever a História. Factos, em toda a sua crueza:

«Os brancos iam às pretas. […] As pretas tinham a cona larga e essa era a explicação para parirem como pariam, de borco, todas viradas para o chão, onde quer que fosse, como os animais. A cona era larga. A das brancas não, era estreita, porque as brancas não eram umas cadelas fáceis, porque à cona sagrada das brancas só lá tinha chegado o do marido, e pouco, e com dificuldade, que elas eram muito estreitas, portanto muito sérias, e convinha que umas soubessem isto das outras.» Isabela vivia na Matola. A Matola, oficialmente designada Vila Salazar, era um arrabalde de Lourenço Marques (em 1980 foi integrada na cidade de Maputo). Quando Isabela ali viveu era um sítio de passagem a caminho da fronteira da África do Sul. Foi lá que os massacres de 7 de Setembro de 1974 se fizeram sentir com maior intensidade: «a negralhada perdeu o freio […] chacinou, cega, tudo o que era branco: os machambeiros e família, os gatos, cães, galinhas, periquitos, vacas brancas, e deixaram-nos agonizando sobre a terra, empapando sangue; salvavam-se as galinhas cafreais de pescoço pelado. E os gatos pretos.» Por exemplo, um dos vizinhos, o marido da Conceição, foi todo desmembrado à catanada antes de ser espalhado no milheiral. Isabela tinha 11 anos, mas não esqueceu.

A Matola não tinha o glamour da Maxaquene, da Ponta Vermelha, da Polana e de Sommerschield. A Matola era um reduto lumpen na zona dos sapais. Foi ali que Isabela cresceu, intuindo o desconcerto do mundo.

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Caderno de Memórias Coloniais - livro, por Isabela Figueiredo

Foi nesta quinta-feira,24 de Dezembro de 2009: na capa do Público, uma chamada para a entrevista que Isabela Figueiredo deu a Alexandra Prado Coelho e que saiu na edição desse dia do jornal, no Ipsilon. Na selecção dos melhores livros de 2009, o Caderno de Memórias Coloniais surgia na posição 14 (em 20), escolhido por Gustavo Rubim, nos seguintes termos:

“Sente-se o abalo que este «Caderno» causa no marasmo literário nacional em passagens como esta: «Foder. O meu pai gostava de foder. Eu nunca vi, mas via-se». Relato cru do racismo português em Moçambique no fim do Império, memória do amor de uma filha pelo corpo do pai, história de traição a uma ‘verdade’ que morreu com a morte do colonialismo. Um texto parcial, violento, escrito como se escrevem cadernos: com o fantasma da verdade sempre ao lado. Isabela Figueiredo afirma-se escritora, num país onde só proliferam ‘autores’, esses manequins de vender autógrafos.”

Na resenha ao livro, com o título «Uma estátua de culpa», Eduardo Pitta, que lhe dá 4 estrelas, di-lo «uma obra imprescindível para compreender o sentido (ou sem sentido) da nossa presença em África». E conclui: «Há muito pouca gente a escrever como ela».

Quanto à entrevista a Alexandra Prado Coelho, «peça de resistência» dessa edição do Ipsilon, saiu com o título «O colonialismo era o meu pai» e é impossível resumi-la, tal a força que dela emana: a força de quem continua, por outros meios, a escrever o Caderno de Memórias Coloniais. Aqui, por agora, apenas um excerto:

O meu pai foi um mediador entre mim e a realidade. Eu conhecia a realidade através dele e do mundo que ele trazia até mim. Portanto só posso culpar o meu pai. O colonialismo é o meu pai, a discriminação é o meu pai, porque foi ele que eu vi fazer isso.

— extractos retirados deste blog

“MEMÓRIAS DA LUTA CLANDESTINA” O desabafo de um guerrilheiro

“MEMÓRIAS DA LUTA CLANDESTINA” O desabafo de um guerrilheiro

Semana passada foi fértil em revelações dos combatentes moçambicanos pela liberdade, aqueles que, nos anos 1960, hipotecaram a caminhada que as suas vidas iam tendo para lutarem contra uma outra hipoteca: a do direito à autodeterminação. Os portugueses estavam arrogantemente convictos de que “aqui também é Portugal” –  como escreveram onde é hoje o Conselho Municipal da capital do país –, pelo que, conforme foi explicando a FRELIMO, o movimento de guerrilha que congregava esses combatentes, só ganhariam consciência do seu equívoco aos tiros.
 
Essas revelações saíram em dois livros que dão continuidade à tendência de os veteranos da guerra de libertação de Moçambique escreverem as suas memórias, tendência essa que tem estado a ser visível desde que Jacinto Veloso publicou há poucos anos “Memórias em Voo Rasante”, em que relata a sua experiência de pirata de ar quando fugiu com um avião militar colonial para juntar-se à FRELIMO na Tanzania. As mais recentes descrições da experiência de luta de patriotas moçambicanos saíram sob os títulos “A Vida do Casal Pachinuapa” – livro escrito por Raimundo e Marina Pachinuapa, que se destacaram nas matas por onde distribuíram tiros ao inimigo nas frentes do norte de Moçambique – e “Memórias da Luta Clandestina”, de Matias Mboa, um combatente naquela que foi a quarta frente da guerra contra o colonialismo português, a chamada frente clandestina, mais política do que militar, desenvolvida nas três províncias do sul do país.

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“Zeca Afonso acabou com programa de rádio” (Carlos Pimentel, Angola 1970-1972)

A Minha Guerra: Combatente radialista

“Zeca Afonso acabou com programa de rádio”

Chegada. Começámos logo mal porque o pequeno-almoço atrasou. Fomos castigados. Estive numa emissora regional e fiz o baptismo de voo.

O primeiro dia no Campo Militar de Grafanil, para onde foi o Batalhão de Caçadores 2911, começou logo mal. O pequeno-almoço atrasou e, quando o comandante chegou, a formatura não estava pronta para a apresentação. Foi um pé-de-vento enorme. Ficámos duas horas formados ao sol e vários militares desmaiaram. Foi o nosso baptismo. E ainda ficámos proibidos de sair. O nosso comandante, Paços Esmariz, era bom, mas passava-se de vez em quando.

Em 17 de Maio de 1970 arrancámos para a nossa zona de acção: Henrique Carvalho, uma capital do distrito de Lunda. Demorámos dois dias a fazer 1200 quilómetros. Quando chegámos só havia uma estrada alcatroada, mas tinha uma pista de aviação descomunal, com quatro quilómetros. Quando viemos embora, em 1972, já as ruas estavam todas alcatroadas. Eu desempenhava a função de oficial de serviço de material e tinha como missão verificar se estava tudo a correr bem com a manutenção das viaturas.

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“Senti um horrível medo de morrer” (Horácio Nunes Moreno, Angola 1965-1968)

A Minha Guerra: Emboscada em Angola

“Senti um horrível medo de morrer”

Missão. a primeira vez foi muito marcante, pois não tinha qualquer experiência de combate, à semelhança de muitos dos meus camaradas.

Eu nasci em Nova Lisboa (hoje Huambo) e foi aqui que ingressei no serviço militar, a 11 de Março de 1965, tinha 21 anos. A recruta, que terminou a 10 de Julho de 1965, foram quatro longos meses, de grande esforço físico e mental, durante a qual tirei a especialidade de condutor. De seguida, fui destacado para Silva Porto, de onde, após oito dias à espera, segui para Luanda. Fui integrado no Esquadrão de Cavalaria ‘Os Dragões’ e tirei a especialidade de condutor de carros de combate AM Panhard – viaturas blindadas. Quando integrei o esquadrão fiquei com muita curiosidade em saber como era a vida na Metrópole, que não conhecia, porque os meus camaradas recém-chegados me diziam bem.

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“Fui salvo por latas cheias de munições” (José Guedes Ribeiro, Angola 1967-1970)

A Minha Guerra: Sorte em Angola

“Fui salvo por latas cheias de munições”

Combates. Os confrontos eram frequentes. Num deles escapei a um tiro devido à mochila carregada. Mas também houve coisas boas.

Nós éramos ‘Os Cagões’, assim conhecidos pelo aprumo. Cortávamos a barba todos os dias, com excepção de quando andávamos no mato. Mas quando regressávamos ao aquartelamento o capitão mandava-nos logo ‘afeitar’. Chegámos a Angola no navio ‘Vera Cruz’. Estivemos em Grafanil, Luanda, e partimos de seguida para o Alto de Quito.

No acampamento estava quase só o meu destacamento, a companhia que geria a zona de Quibala, e o comando encontrava-se em Benguela. A minha comissão era de 14 meses mas foi prolongada, o que deu tempo para eu ser promovido de furriel a sargento miliciano.

O objectivo da nossa companhia era evitar a introdução dos terroristas no território, através de operações de combate. E houve algumas intensas. Fomos atacados muitas vezes, logo que saíamos do acampamento, por inimigos pendurados de tal forma nas árvores que ninguém os via. A companhia registou dois mortos, vítimas de uma mina, e houve muitos feridos, alguns dos quais ficaram deficientes. Os terroristas já estavam bem equipados, com espingardas e metralhadoras, algumas que nós não possuíamos nem conhecíamos. Os seus ataques obrigaram-nos muitas vezes a recuar para a base: tínhamos tantos feridos que era impossível continuar a avançar no terreno.

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“Não quis reviver dor do adeus à família” (José Santos, Angola 1971-1974)

A Minha Guerra: Último a ir para Angola

“Não quis reviver dor do adeus à família”

Partida. Os meus cinco camaradas gritaram de alegria por já não caberem no navio, mas eu insisti para ir. Evitei ter de me despedir duas vezes.

Estávamos a 14 de Dezembro de 1971. O gigante dos mares ‘Vera Cruz’ foi engolindo todo o batalhão até não poder mais. Sobrámos seis criaturas desprotegidas e tristes, logo após se ter verificado a sobrelotação do barco. “Vocês já não cabem!” – gritou-nos o capitão. “Como só volta a haver transporte no dia 8 de Janeiro, ides todos passar o Natal e o Ano Novo a casa”. Gritaram de alegria os meus cinco camaradas. Eu enfrentei o capitão e disse-lhe: “Encaixe-me num buraco qualquer. Não quero voltar a reviver de novo a dilacerante dor do adeus à família”. E, como estava tudo cheio, escapei à degradante 3ª classe e fui encafuado num camarote de 2ª.

Durante a viagem houve quem chorasse desesperadamente. Eu preferi arquitectar sonhos, ao ritmo da frenética dança dos peixes voadores. Quando chegámos a Luanda, fui enviado para a povoação de Piri, no Norte, algures entre o Caxito e Quibaxe. Na manhã da partida para o mato acenámos um último adeus à belíssima capital do território e, envoltos num espesso e tórrido ar de estufa, rumámos, integrados na coluna militar, ao Norte, a Dange, a Dembos, paredes-meias com a famigerada Pedra Verde. Estrada fora, a fita negra e estreita de alcatrão, praticamente oculta pelas marés alterosas do capim que das bermas fustigava as viaturas, estendia-se à nossa frente em requebros sinuosos e difíceis de trilhar.

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“Um deles ainda vi a dar o último suspiro” (Cid Barata Lima, Moçambique 1966-1968)

A Minha Guerra: Militar-poeta em Moçambique

“Um deles ainda vi a dar o último suspiro”

Ser cozinheiro deu-me uma tropa mais tranquila. Apesar disso ainda assisti à morte de vários camaradas e estive envolvido nalguns combates.

Foi em Moçambique, em 1966, que empunhei armas para lutar em nome da minha Pátria. Segui viagem desde Lisboa no navio ‘Vera Cruz’, onde também viajava o general Ramalho Eanes, na altura capitão e comandante de uma companhia de caçadores. A bordo iam três batalhões, mas mesmo assim tive oportunidade de travar conhecimento com Eanes, que era compadre do capitão que comandava o meu batalhão. Hoje somos vizinhos e bons amigos. Mas a minha guerra começou a 4 de Janeiro de 1964, quando fiz 20 anos e fui dar o nome, como era exigido nessa altura. Cinco meses depois fui à inspecção, em Góis, tendo sido considerado apto para todo o serviço militar.

Assentei praça em 26 de Outubro de 1965, no Regimento de Infantaria 10, em Aveiro. Ali fiz a recruta, em Novembro e Dezembro. Foram dias muito amargos e duros para um jovem que, embora criado na linda aldeia de Carvalhal do Colmeal, já conhecia algumas vilas e muitas aldeias, pois o meu pai negociava em gado e vivíamos da agricultura. Trabalho que eu aprendi a fazer, mas que não pude praticar em Aveiro, onde os dias eram passados a rastejar junto às salinas.

A minha caserna era na primeira companhia, comandada pelo capitão Macedo, um homem rijo. Os mosaicos da caserna eram paralelos pretos, por já ter lá existido uma cavalariça. Só tínhamos dois lençóis e duas mantas para nos protegermos do frio, que era muito e nos deixava a tremer. O banho era outro tremor, por ser de água fria. Passei dois meses mesmo duros.

Em 2 de Janeiro de 1966, dia do meu aniversário, entrei pela primeira vez no Regimento de Infantaria 15, em Tomar. Tirei a especialidade de cozinheiro e quando passei a pronto fui transferido para outra caserna. Dois dias passados soube que estava mobilizado para uma comissão de reforço, com destino a Moçambique.

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DIGITAIS - MOZAMBIQUE: MEMOIRS OF A REVOLUTION

DIGITAIS - MOZAMBIQUE: MEMOIRS OF A REVOLUTION

JOHN PAUL (1975)

PENGUIN AFRICAN LIBRARY

@XicoNhoca

DIGITAIS - WIRIYAMU MY LAI IN MOZAMBIQUE

DIGITAIS - WIRIYAMU MY LAI IN MOZAMBIQUE

ADRIAN ASTINGS (1974)

@XicoNhoca

DIGITAIS - DOSSIER “ANGOLA” (1975)

DIGITAIS - DOSSIER “ANGOLA” (1975)

IDOC INTERNATIONAL

@XicoNhoca

Era uma vez um punhado de homens (João Vaz de Almeida)

Era uma vez um punhado de homens (João Vaz de Almeida)

Amanhã festeja-se o 44º aniversário do início da Luta de Libertação Nacional que, volvida mais de uma década, daria origem à independência de Moçambique. No Chai, um remoto povoado no interior de Cabo Delgado, naquela noite de 25 de Setembro de 1964, um punhado de homens semeou a gesta da independência para colhê-la onze anos mais tarde numa chuvosa noite de Junho com a subida ao mastro da bandeira do Moçambique Independente. Goste-se ou não de quem conduziu a luta, simpatize-se ou não com o partido que tem exercido o poder nestes anos, aprovese ou não a política e a ideologia seguidas, equacione-se ou não a veracidade dos factos ocorridos no Chai naquele dia, mas não se retire mérito e valor àqueles homens que perseguiram, através da sua luta e pondo em risco as suas vidas, um fim: a libertação do país do jugo colonial. Porque esse direito, o de ser livre e de poder escolher o seu destino, deve estar acima de tudo. Porque, como dizia o presidente Samora, ninguém pergunta a um escravo se quer ser livre.

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“Fomos atacados pela nossa aviação” (Manuel Sousa, Guiné 1966-1968)

A Minha Guerra: Alvo errado na Guiné

“Fomos atacados pela nossa aviação”

Ultramar. Fiz duas comissões, na Guiné e em Angola, alistei-me no exército como voluntário e fui militar até me reformar, na Escola de Sargentos.

A minha história é diferente daquela que é contada pela esmagadora maioria dos que estiveram no Ultramar. Eu alistei-me como voluntário no Exército e passei a vida no meio militar. Ainda hoje, reformado, ajudo nas questões administrativas na Liga dos Combatentes. Eu fui um dos 180 homens que partiram no ‘Niassa’, a 30 de Julho de 1966, com destino à Guiné. Desembarcámos em Bissau a 5 de Agosto e seguimos de imediato numa lancha para Catió e depois para a ilha de Como, que tinha um papel de destaque nos símbolos da luta do PAIGC.

Estivemos seis meses na ilha. O meu lema era: ‘Não morrem todos, porque é que me há-de calhar a mim?’ A primeira peripécia aconteceu ao fim de quatro meses, com a nossa própria aviação, que nos avistou e pensou sermos o inimigo. Houve uma descoordenação, não conseguimos contactar os nossos camaradas e fomos bombardeados. Tivemos de fugir para o aquartelamento e, por sorte, ninguém ficou ferido.

As coisas não estavam a correr bem. Não tínhamos água potável na ilha. As lanchas da Marinha abasteciam-nos todos os dias, desde Catió, mas quando não havia maré não podiam cumprir a missão. Tínhamos de poupar. Só tomávamos banho e lavávamos a roupa quando chovia. Ao rio não íamos porque tinha crocodilos. Foi ali que se registaram os primeiros feridos da companhia. Tínhamos armadilhado o caminho até aos bidões de gasolina, junto ao rio, e apenas os condutores sabiam lá chegar. Só que um cão accionou as minas, que feriram cinco militares.

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“Os pés não foram decepados pelo inimigo” (José Cabedo: Goa, Moçambique e Angola 1958-1972)

A Minha Guerra: Emboscada da CCVA 1773

“Os pés não foram decepados pelo inimigo”
 
Enquanto puder, defenderei com tudo o que estiver ao meu alcance o que os meus homens fizeram e como se comportaram em combate.

Cumpri quatro comissões no Ultramar: em Goa, como alferes e tenente, comandante de um pelotão de reconhecimento; em Moçambique, já capitão, no comando da Companhia de Cavalaria 568; em Angola, ainda capitão, comandante da Companhia de Cavalaria 1773; e, por último, já major, como oficial de operações do Batalhão de Cavalaria 3836. Torna-se difícl falar de tudo o que passei durante as minhas comissões. Falarei da ‘minha guerra’, a que vivi com os meus homens. Não falo do que fizeram ou deixaram de fazer as outras unidades.

Esta oportunidade de escrever sobre o que se passou devo aos militares sob o meu comando. Não admito que outros falem por nós. Enquanto puder, defenderei com tudo o que tiver ao meu alcance o que os meus homens fizeram e como se comportaram. Já que alguém resolveu escrever sobre a companhia que comandei (ver depoimento de António Guerreiro, na edição de 27 de Setembro de 2009, “Cortaram tornozelos para roubar as botas”), ainda por cima com mentiras e asneiras, resolvi sair a terreiro – não para salvar a minha honra mas para repor a verdade em defesa dos meus homens.

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“Uma mina matou o meu melhor camarada” (Dinis Frade, Guiné 1967-1969)

A Minha Guerra: Emboscada na Guiné

“Uma mina matou o meu melhor camarada”

Dor. Ela pediu-me mas nunca contei à namorada do Chico a forma horrível como ele morreu, no dia seguinte a termo-nos visto pela última vez.

A maior mágoa que trouxe da guerra no Ultramar foi a morte do meu melhor amigo, o Chico – de nome completo Francisco Pepino Tomás do Coito. Conhecemo-nos na recruta e, sendo ribatejanos, eu de Amiais de Baixo e ele de Alcanhões, criámos uma grande amizade, como se fôssemos irmãos. Quando embarcámos para a Guiné éramos radiotelegrafistas e pertencíamos ao mesmo batalhão mas fomos colocados em companhias diferentes, a 30 quilómetros de distância. Eu fiquei em Farim, no Norte, e ele em Quntina, na fronteira com o Senegal, onde estavam todos os atiradores. Como pertencíamos às Comunicações, falávamos muito durante a noite, quando estávamos no mesmo turno, ao longo dos oito meses de comissão.

A última vez que o vi foi na véspera da sua morte, quando veio ao meu quartel. O Chico escreveu quatro aerogramas para a família e a namorada, e pediu-me que os metesse no correio, uma vez que o avião chegava no dia seguinte. Dormiu na minha cama enquanto estive de serviço e partiu muito cedo, sem se despedir, pedindo apenas ao estafeta que me desse um abraço por ele.

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Frelimo - outros relatos do ‘inferno’. Excertos de um livro a sair em breve

Guebuza encontrava-se naquele Centro de Bagamoyo havia uma semana. Tinha vindo de Moçambique com os seus conterrâneos José Mazuze, Pascoal Nhapule, Francisco Langa, Josina Mutemba (namorada de Filipe Samuel Magaia). Também era frequente a presença de Filipe Samuel Magaia naquele Centro, onde vinha para nos politizar.

Quanto a Filipe Samuel Magaia (1º Comandante de todas as forças da DSD da FRELIMO), foi vítima de uma emboscada por parte das próprias forças, para deixar Josina viúva, para mais tarde desposar Samora Machel e para o mesmo tomar o lugar do mesmo Filipe Magaia.

O comandante de todas as forças da FRELIMO, estava por conseguinte em Kongwa e Filipe Samuel Magaia por ocupar uma posição hierarquicamente superior encontrava-se em Dar-es-Saalam, onde encontrava-se sediada a FRELIMO. Apesar deste distanciamento e tempo como militar da FRELIMO nunca vi estes dois elementos juntos, o que antevia uma certa animosidade entre eles, talvez sublimado pelo facto de um ser da Zambézia (Magaia) e outro de Gaza (Samora).
…………
Samora saía poucas vezes de Kongwa e talvez por esse motivo teve facilidade em manipular os quadros militares até à morte de Magaia, altura em que lhe ficou com a namorada assim como com o Departamento de Defesa, entregando o da Segurança ao amigo Joaquim Chissano, tudo com o consentimento do Dr. Mondlane.
…………
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No contexto da Revolução - ‘na Frelimo era norma fuzilar pessoas’

Entrevista de Mariano Matsinhe ao SAVANA

Por Francisco Carmona e Emídio Beúla / Savana

Mariano Matsinhe (72anos), um dos símbolos da gesta de 25 de Setembro, confessa que não lhe agrada ouvir falar de órgãos de comunicação independentes.

Para a velha guarda da Frelimo melhor se a designação passasse para órgãos independentes da Frelimo. Porque, acredita, dependentes o são de alguma coisa. Mas nem com isso, o homem que abandonou a engenharia civil (cursava o segundo ano) em Portugal para se juntar à Frelimo em 1962, não se coibiu em conversar com o SAVANA por quase uma hora, revivendo um percurso político sempre em reconstrução. Pelo caminho disse, entre outras revelações, que havia uma certa precipitação (necessária?) na tomada de decisões, que os campos de reeducação não foram um erro e que, volvidos quase 45 anos após o início da luta, não se arrepende de nada. Nem dos fuzilamentos,
apesar de reconhecer alguns excessos do SNASP, um órgão do regime e de triste memória. Acompanhe alguns extractos da conversa mantida última sexta-feira em Maputo.

Sr. General, passam 34 anos após a proclamação da independência nacional. Este Setembro comemoramos 45 anos após a insurreição armada e 35 anos dos acordos de Lusaka. Quando olha para trás, que balanço faz deste Moçambique?

Olha, tenho a impressão de que foi tudo correcto. Havia muita agitação, naturalmente, por causa do carácter do colonialismo que tínhamos. E nós éramos jovens. Eu próprio que sou mais velho que muitos líderes da Frelimo tinha 25 anos quando me juntei à Frelimo. Havia uma certa precipitação na tomada de decisões. Mas era necessária. Porque se a gente começasse a pensar nas consequências, as coisas seriam diferentes. Nós tínhamos a vantagem de sermos jovens. Não éramos casados e não tínhamos filhos. Não tínhamos o peso das consequências. A gente pensava como jovens e só queríamos a independência. Outros eram mais velhos, já tinham casado e tinham filhos e diziam o seguinte: vamos combater até ao fim, se ficarmos independentes os nossos filhos vão continuar com a batalha até à independência.
Estávamos preparados para isso, para o sacrifício máximo pela independência de Moçambique.

Quando se junta à Frelimo vinha da UNAMI…

Eu pertencia, assim ligeiramente, à UNAMI. Mas eu fugi de Portugal. Abandonei os estudos. Estava a fazer engenharia civil. Vim cá de férias. Os portugueses pagaram-me férias. Havia muitos outros estudantes de todas as colónias portuguesas. Quando tentei uma saída de Portugal para cá, não consegui. Então aproveitei a vinda para cá e o meu pai vivia na fronteira com o Malawi. Isso era uma grande vantagem para mim e, portanto, foi fácil escapulir para o Malawi e daquele país avançar para a Tanzânia. Mas no Malawi tive que ser da UNAMI para ganhar credibilidade. Porque podiam desconfiar, tendo em conta que vinha de Lisboa. Este episódio deu-se em 1962.

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‘Revelações do Inferno’ em livro polémico sobre a história da Frelimo

FRELIMO – Mais revelações do Inferno. (Excertos do livro a publicar por um ex-comandante de guerrilha da Frelimo) - Ovar, 25 de Outubro de 2009. Álvaro Teixeira (GE)

Transcrito pelo ‘XicoNhoca’ deste blog

Como já é do conhecimento de todos, a morte de Filipe Magaia foi planeada e mandada executar pelo Samora Machel, por dois motivos essenciais, o primeiro de ambição do poder, a fim de ser nomeado pelo Eduardo Mondlane chefe do dispositivo militar e de segurança da Frelimo e o segundo, ficar com a viúva de Filipe Magaia, Josina Muthemba, mais tarde, Josina Machel.

De acordo com vários historiadores, cuja credibilidade nunca foi posta em causa, este foi o primeiro passo dado pelo Samora Machel para a tomada, a prazo, do poder na Frelimo e é, neste fase, que entra a facção marxista-leninista e maoísta desta organização. Havia necessidade de eliminar todos aqueles que se opunham à tomada do poder por esta facção liderada pelo Samora Machel e que tinha, na sua retaguarda, homens como Joaquim Chissano, Marcelino dos Santos, Alberto Chipande, Mariano Matsinhe, Armando Guebuza, Castiano Zumbiri, Sérgio Vieira, Sebastião Mabote, Jacinto Veloso e tantos outros.

Josina Muthemba Machel
O plano ensaiado por esta facção começa com a eliminação do comandante da DSD, Filipe Magaia e acaba com a eliminação do próprio Eduardo Mondlane que tinha dado cobertura a todas a acções empreendidas pela facção liderada pelo Samora Machel, pelo que Eduardo Mondlane veio a ser vítima da sua complacência com a ambição do Samora Machel.

Devo recordar que o Samora Machel, em termos de formação, nunca passou de ajudante de enfermagem e que a sua a sua instrução não passou dos campos de treinos de guerrilha, na Argélia, e, posteriormente, da instrução política e guerrilheira na China maoísta.

Samora Machel (Libertador ou Assassino?)
O assassinato de Filipe Magaia já foi descrito num artigo deste Blog, mas, no entanto, há necessidade de escrever algo mais acerca deste assunto e dar a conhecer a todos mais alguns dos assassinos envolvidos nesta morte que deixou de ser misteriosa. O tiro que, na emboscada, atingiu Filipe Magaia foi disparado pelo seu camarada Lourenço Matola e entre os elementos envolvidos na operação, encontrava-se um tal Lino Ibrahimo que, com a colaboração dos elementos envolvidos no assassinato, transportaram o moribundo Filipe Magaia para a fronteira de Moçambique com a Tanzânia. O Lourenço Matola foi entregue aos militares tanzanianos e desapareceu. Todos os outros foram levados para o campo de Nachingwea, onde, alguns foram fuzilados, de imediato, e outros enviados para bases no interior de Moçambique, onde tiveram a mesma sorte. O tal Lino Ibrahimo foi enviado para a base Beira, em Cabo Delgado, onde foi abatido pelo actual general João Facitele Pelembe, comandante da base, quando procurava abrigo de um ataque aéreo efectuado por aviões T6 das FAP (Força Aérea Portuguesa).

Graça Machel ( e esta senhora não tem nada a dizer?). Afinal, foi esposa de um criminoso.
Samora Machel procurou, por todos os meios, eliminar todas as testemunhas deste acto criminoso, tal como veio a suceder com o assassinato do Eduardo Mondlane com a conivência do presidente tanzaniano, Julius Nyerere.

LISTA DE ELEMENTOS ELIMINADOS PELA FRELIMO
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Não foi só Rosa Coutinho. Angola - Alto-comissário português favoreceu MPLA durante transição para a independência

Maputo (Canalmoz) - Contrariamente ao que se julgava, o Almirante Rosa Coutinho, que após o golpe de 25 de Abril de 1974 em Portugal foi nomeado alto-comissário português em Angola, não foi o único a favorecer o MPLA na tomada do poder pela força em Luanda à revelia do Acordo de Alvor que previa a realização de eleições livres. Leonel Cardoso, que viria a substituir Rosa Coutinho no cargo de alto-comissário português, desempenhou na prática um papel igualmente pernicioso para o futuro do novo Estado independente.

De acordo com Vladimir Shubin, autor do livro, «The Hot Cold War – the USSR in Southern Africa», em Outubro de 1975, cerca de um mês antes da proclamação da independência de Angola, Leonel Cardoso convidou Igor Uvarov, oficial russo que trabalhava sob a capa de correspondente da agência TASS em Luanda, para uma conversa, tendo-lhe confidenciado que “Portugal deparava com um problema: a quem deveria transferir o poder em Angola.”

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História - Livro polémico lançado hoje defende que guerra colonial foi «guerra justa»

A editora A Livros d’ Hoje leva a efeito hoje, Quarta-Feira, pelas 18 horas, em Lisboa, na Academia Militar, uma sessão de lançamento do livro de João José Brandão Ferreira, intitulado «Em Nome da Pátria», o livro terá a apresentação do Prof. Adriano Moreira.
Três décadas após o fim da guerra colonial, Brandão Ferreira questiona no livro Em Nome da Pátria se os portugueses travaram uma «guerra justa» e se tinham o direito de a fazer e conclui que a descolonização «enfraqueceu» o país.

O livro, com quase 600 páginas, é lançado esta quarta-feira, na Academia Militar, em Lisboa, pela Publicações D. Quixote.

No prefácio, o professor universitário Adriano Moreira recorda que «foi o elo militar o definitivamente atingido pela fadiga, e a decisão, do centro do poder que deslizou para as bases, foi a de colocar um ponto final na guerra, logo com o apoio ao regime político mas inevitavelmente com o efeito colateral de colocar um ponto final no conceito estratégico secular».

Para Brandão Ferreira, não é surpreendente que, três décadas depois de terminada a guerra colonial (1961-1975), «a nossa sociedade se encontre completamente dividida em relação àquilo que se passou e à verdadeira interpretação a dar aos complexos acontecimentos então vividos».

No entender do autor, impõe-se «conseguir um conjunto elaborado de conhecimento que permita que a nação portuguesa caminhe para um futuro assente em bases sólidas e verdadeiras e não sobre falsos postulados».

O tenente-coronel piloto-aviador Brandão Ferreira, 56 anos, é um militar de transição entre dois regimes políticos. Estava ainda na Academia Militar quando ocorreu o 25 de Abril de 1974 e seguiu depois para os Estados Unidos. Esteve 27 anos na Força Aérea e foi adido de Defesa na Guiné-Bissau, Senegal e Guiné-Conacri.

Nunca combateu na guerra colonial mas os valores que professa no livro (Pátria, um Portugal do Minho a Timor) são os dessa época. Os seus princípios parecem inabaláveis: «Por aquilo que é secundário, negoceia-se; pelo que é importante, combate-se; pelo que é fundamental, morre-se».

No seu entender, com a descolonização, os portugueses perderam «liberdade estratégica» e ficaram «enfraquecidos e divididos como comunidade».

Apesar de declarar que não pretende impor «uma linha de pensamento único» mas sim reflectir sobre o tema, Brandão Ferreira opina que «Portugal fez uma guerra justa e, além disso, tinha toda a razão do seu lado».

Admite, contudo, que «a guerra é sobretudo uma luta de vontades».

O militar culpa Marcelo Caetano («uma pessoa de bem», com «grandes qualidades intelectuais») de nada ter feito «para contrariar eficazmente» aqueles que então começaram a defender a independência das ex-colónias.

No livro, Brandão Ferreira rejeita Nega que a guerra fosse insustentável, nomeadamente devido ao número de baixas portuguesas: «A verdade é que, por ano, morria mais gente nas estradas de Portugal Continental do que nas três frentes de luta em África», sustenta.

«Será mais digno combater no Afeganistão que no Estado português da Índia? No Líbano que em Angola? Na Bósnia que na Guiné-Bissau? No Kosovo, que em Moçambique? São estes os novos ventos da história?» - pergunta.

Lusa / SOL

Graves Incidentes em Moçambique: A guerra batia agora à porta dos colonos brancos nesta área (Janeiro de 1974)

Graves Incidentes em Moçambique – Janeiro de 1974

A guerra batia agora à porta dos colonos brancos nesta área (Janeiro de 1974)

No dia seguinte encerraram todos os estabelecimentos comerciais de Vila Pery, Vila de Manica e Machipanda, declarando que não os reabririam até que o Governo lhes desse garantias solenes de que iria tomar medidas imediatas para a defesa das populações civis. Dia 16, de manhã, largas centenas de viaturas, com milhares de colonos, afluíram a Vila de Manica para se incorporarem no funeral da fazendeira. E, à tarde, todos os agricultores e comerciantes brancos do distrito se manifestaram, ruidosa e iradamente, junto ao palácio do governador. Estando este ausente de licença na metrópole, foi o encarregado do Governo quem recebeu uma delegação dos manifestantes para a informar de que o governador-geral, sabedor do que se passava, respondera que «embora compreendesse as preocupações dos agricultores e a solidariedade dos comerciantes para com eles, manifestações públicas representavam traição e procederia com severidade se as lojas não reabrissem imediatamente».

A ira da população branca atingiu o auge. Rejeitando as ameaças do governador-geral, fizeram-lhe saber que todo o comércio se manteria encerrado até receberem garantias do Governo de que seriam tomadas as medidas que exigiam.

Carta dos Oficiais do Movimento em Moçambique (Janeiro de 1974)

Carta dos Oficiais do Movimento em Moçambique (Janeiro de 1974)

Graves Incidentes em Moçambique – Janeiro 1974

Excerto de Carta enviada pelos camaradas do Movimento a 19 de Janeiro de 1974

9. Como vos dissemos no nosso telex de ontem, começou o quase kafkia no processo de enxovalho das Forças Armadas. A situação é grave. Ontem, 18, voltaram a repetir-se as manifestações na Beira tendo-lhes sido barrado o caminho para a messe, concentraram-se em frente às residências do comandante do CTC e CEM. Choveram os insultos, obscenidades e pedradas.

O governador-geral ainda não tomou qualquer atitude, pelo menos que se saiba. Claro que é demasiado simples ficarmos danados com os civis que estamos a defennder, etc. As contradições internas do sistema começaram a parir. A deficiente e mesmo capciosa informação do público só podia resultar nisto, como aliás todos nós prevíamos. Não se vislumbra como se poderá sair disto com um mínimo de dignidade. O prestígio por que nos batemos está seriamente afectado. São precisas medidas urgentes, que só aí poderão ser tomadas. Aqui parece-nos difícil que alguém responsável saiba o que fazer além de mexer em forças. Pedimos que actuem imediatamente e em força e nos dêem instruções. Pelo menos a tal campanha de esclarecimento tem de começar «ontem». E ir logo direita à ferida. Incluída nela, é imprescindível a publicação de um Livro Branco sobre a Índia. E apaguem o beatíssimo sorriso da cara desses políticos.

Graves Incidentes na cidade da Beira em Moçambique (Janeiro de 1974)

Graves Incidentes na cidade da Beira em Moçambique (Janeiro de 1974)

Foi na Beira que acontecimentos mais gravosos ocorreram. Ao começo da tarde, realizou-se uma manifestação junto do Governo do distrito e pelas vinte e trinta, enquadrados por elementos da PIDE/DGS, cerca de 400 brancos e negros da população local, em fúria, insultaram gravemente as Forças Armadas e acusaram durante longo tempo os oficiais que se encontravam alojados, em trânsito, na Messe de Oficiais do Macúti, chegando a apedrejar o edifício perante a passividade das forças policiais que, horas antes, se haviam instalado na zona. Mais tarde, manifestar-se-iam ainda em frente das residências do comandante do CTC e do chefe do EM.

O comandante do CTC, o excelente brigadeiro Ventura Lopes, estava ausente de licença. É o coronel Baía dos Santos, 2.° Comandante a desem¬penhar interinamente as funções de 1.º, mostra-se incapaz de resolver a situação.

Receando tiro ou pedrada por parte dos manifestantes, é visto a caminhar de gatas pela varanda em direcção ao quarto, na Messe, onde reside com a mulher. E será o tenente-coronel José Pinto Ferreira, enér¬gico e decidido mestre de Educação Física de várias gerações de oficiais na Academia Militar, então comandando os GEP africanos estacionados no Dondo, quem, dizendo «basta», põe cobro à situação, exigindo a Baía dos Santos que dê ordem à companhia de PM que enfrenta, no exterior, os manifestantes e à que no pátio interior se encontra de reserva para «limparem» o espaço fronteiro à Messe. O que ambas farão com proficiência, varrendo tudo e todos, a casse-tête, até ao mar.

“No mato tinha de matar para não morrer” (Jorge dos Santos Patrício - Guiné 1966-1968)

A Minha Guerra: Episódio na Guiné

“No mato tinha de matar para não morrer”

Sobrevivência. Numa operação de limpeza matámos e destruímos tudo o que nos apareceu à frente. Foi uma coisa infernal, um tiroteio medonho.

Comecei o serviço militar no dia 24 de Janeiro de 1966, quando me apresentei na Guarda, no Regimento de Infantaria 12. Ali fiz a recruta. Em Abril fui para Abrantes tirar o curso de atirador. Parti para a Guiné no dia 30 de Julho, a bordo do paquete ‘Uíge’. Cheguei a Bissau e embarquei em batelões da Companhia Ultramarina como se de mercadoria se tratasse. Passadas uma boas horas saí em Catió. Nunca tinha visto tantos negros à minha volta mas, se eram os nossos inimigos, naquela altura pareciam bons amigos.

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“Cortaram tornozelos para roubar as botas” (António Guerreiro - Angola 1967-1969)

A Minha Guerra: Episódio em Angola

“Cortaram tornozelos para roubar as botas”

Combates. Mataram três homens a tiro numa emboscada e mutilaram os corpos à catanada. Perdemos dois alferes e um cabo nesse ataque.

Estive no centro da guerra, numa encruzilhada no caminho de toda a gente. Era a zona onde as coisas mais ‘aqueciam’, Nambuangongo, em Angola. Sempre fui militar e, antes de ir para o Ultramar, dei instrução em Estremoz. Quando soube para onde me tinham mandado, um sargento gracejou comigo: ‘Vais ver as maminhas da Lollobrigida’. Na altura, não entendi. Embarcámos no navio ‘Uíge’ e chegámos a Luanda no dia 28 de Novembro de 1967. Estivemos lá apenas três dias. Ao chegar a Nambuangongo, percebi, finalmente, a piada: nesse lugar havia dois enormes morros, daí a comparação com os seios da actriz italiana, na altura com 40 anos de idade.

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“Revoltado, cortei uma orelha ao inimigo” (Mário Matos - Moçambique 1968/1970)

A Minha Guerra: Episódio em Moçambique

“Revoltado, cortei uma orelha ao inimigo”

Mutilação. Com uma bazuca o soldado matou dois dos nossos camaradas. Ainda hoje vivo esse drama, ao recordar os corpos desfigurados.

O meu pai queria que eu fugisse para França, mas optei por ficar e fazer o serviço militar. Depois de tirar a recruta no Regimento de Infantaria 3, em Beja, e a especialidade em Estremoz, no Regimento de Cavalaria 3, já sabia que o meu destino seria o Ultramar, como atirador – era carne para canhão. A 24 de Abril de 1968 embarquei no navio ‘Vera Cruz’, no Cais da Rocha, com destino a Moçambique. Chegámos a Lourenço Marques no dia 10 de Maio, para o desfile habitual, após escala na Beira, Nacala, Porto Amélia e Mocimboa da Praia. Foi a partir daqui que sentimos que estávamos na guerra a sério.

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“Matei para vingar morte de camarada” (Carlos Neto - Angola 1967-1969)

A Minha Guerra: Episódio em Angola

“Matei para vingar morte de camarada”

Coragem. Sempre gostei da guerra. Fiz todas as missões da minha companhia e fui noutras como voluntário. Vi muitos homens morrerem.

Quando era novo e estava na recruta, em Tancos, o que mais queria era ir para a guerra, gostava daquilo. Fiz os cursos de combate e de pára-quedista, que me deu o lema de vida: ‘Que nunca por vencidos se conheçam’. Em 1967 parti para Angola. A minha primeira operação foi em Santa Eulália, oito dias após chegarmos. Fomos para o mato, com pára-quedistas experientes e andámos aos tiros com guerrilheiros. Na altura, era aquilo que queria, mas jamais poderei esquecer os amigos que perdi, como o tenente Assoreira, o sargento Caria Ramos, o furriel Barata, o Barbeiro, o Magalhães, o Casaca e tantos outros. Não esqueço também o dia em que perdemos o sargento Mansos, que morreu com problemas cardíacos ao saltar de pára-quedas.

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“Camarada ‘raptado’ perdeu-se nos copos” (Manuel Teixeira - Moçambique 1966/1969)

A Minha Guerra: Episódio em Moçambique

“Camarada ‘raptado’ perdeu-se nos copos”

Era radiotelegrafista e fui ameaçado de castigo por não conseguir um contacto. Mas tudo acabou em bem e com algumas histórias caricatas.

Fui para Moçambique em 1964 à procura de melhores condições de vida. Aí fui incorporado em 1966 e fiz a recruta na Cidadela Militar de Boane, não muito longe de Lourenço Marques, hoje Maputo. Era uma vivência enorme pela quantidade de militares que ali se encontravam, havendo pessoas de todos os locais e estratos sociais.

Em Maio, finda a recruta, fui colocado na Companhia de Transmissões em Lourenço Marques, no Agrupamento de Engenharia de Moçambique, onde tirei a especialidade de radiotelegrafista. Cinco meses depois, em Outubro, fui transferido para Vila Pery, actual Chimoio, e promovido a 1º cabo radiotelegrafista.

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“Aguentei 40 pontos num braço a sangue frio” (Fernando Ferra - Angola 1967/1969)

A Minha Guerra: Ferido em Angola

“Aguentei 40 pontos num braço a sangue frio”

Ainda hoje procuro o homem que me salvou de morrer quando o camião onde seguia se virou. Só sei que era um colono português.

A recordação mais marcante que trouxe de África é de um grave acidente de viação, em serviço, que me deixou marcas para o resto da vida. Fui salvo por alguém que ainda hoje não sei quem foi, mas que gostava de voltar a encontrar, para lhe agradecer condignamente.

O acidente ocorreu a 28 de Setembro de 1969. Tinha boas referências junto do comandante de pelotão e fui nomeado responsável pela bagagem de um transporte de mercadorias entre Nova Lisboa e Luanda. Durante a viagem, à passagem por Cela, a viatura Volvo despistou-se quando fazia uma ultrapassagem. Quando o camião capotou e se voltou, estive quase para morrer esmagado no interior, mas fui projectado pela janela para a rua. Ainda hoje acredito que sobrevivi por puro milagre.

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Quem matou Jonas Savimbi?

Um traidor chamado Geraldo Sachipengo Nunda

Quem matou Jonas Savimbi? Não só, mas sobretudo militares a quem Savimbi ensinou tudo e que, por um prato de lagostas, o trairam. Entre eles o próprio general Geraldo Sachipengo Nunda, hoje vice-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas de Angola.

Por Orlando Castro

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“Eu fiquei quando ia voltar pelo Natal” (Zulmiro Vieira - Guiné 1971-1973)

Revoltado na Guiné

“Eu fiquei quando ia voltar pelo Natal”

Triste. Estava para apanhar o avião a tempo de passar a quadra com a família, quando fui obrigado por um capitão a passar mais 15 dias no mato.

Aminha guerra começou quando assentei praça na Escola Prática de Cavalaria em Santarém, para tirar o Curso de Sargentos Milicianos, no dia 6 de Abril de 1970. Após a recruta fui para a Escola Prática de Artilharia (EPA), em Vendas Novas, fazer a especialidade de atirador, a qual terminei em Setembro seguinte, no 5º lugar da classificação. Este resultado permitia-me alimentar a esperança de não ser mobilizado para a guerra. Mas acabei por partir e até vi o meu regresso ser atrasado, ao fim de quase dois anos, por causa de um capitão.

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“Fiz parte do conhecido pelotão com sorte” (António Garcia - Angola 1973/75)

Combateu em Angola

“Fiz parte do conhecido pelotão com sorte”

No meu grupo não houve baixas mas sofremos muitas emboscadas. Numa deslocação encontramos camaradas mortos devido à explosão de uma mina.

Estávamos no final de 1973 e já não ia passar o fim-de-ano com a família. A partida para Angola estava marcada para 28 de Dezembro. Já namorava com aquela que viria a ser a minha esposa. Custou a ir mas tinha de ser, não se podia dizer que não à Pátria. Eu era apontador de morteiro, uma arma de tiro curvo e fogo potente capaz de abater alvos desenfiados ou em contra-encosta. Tinha de regular onde a granada iria cair e mandar tudo pelos ares.

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“Chegámos a usar mais o sabre do que as balas” (Arlindo Gomes - Angola, 1961/1963)

Queriam roubar armas

“Chegámos a usar mais o sabre do que as balas”

Ataque. Uma emboscada a caminho de Nanbuangongo terminou com vários mortos e feridos. A defesa da artilharia pesada foi feita corpo a corpo.

Apresentei-me no Regime de Infantaria número 5, nas Caldas da Rainha, a 3 de Outubro de 1960. Depois de terminada a recruta, em Abril de 1961, fui mobilizado para a Índia, assim como outros conterrâneos e um companheiro, o ‘Zé’ Carvalho, de Sever do Vouga. Ainda antes, frequentei a Escola de Cabos para Escriturário e aí o primeiro-sargento Coelho, amanuense do regimento, disse-me que se tivesse boa classificação era capaz de não ser obrigado a ir para a Índia. E assim foi. Fui o melhor do regimento com uma pontuação de 17, 6 valores. Mas, não sabendo ainda da nota, e após o curso, fui a casa passar oito dias de férias para me despedir da família. De regresso às Caldas, eu e o Carvalho fomos chamados ao Comandante do Regimento, o coronel Fernando Viotti de Carvalho, que nos informou que já não íamos para a Índia porque tínhamos sido os melhores do curso. Nesse dia foi uma alegria: bebemos e comemos até não poder mais! O entusiasmo durou pouco. Uns dias depois estávamos de novo com a farda amarela, a velha Mauser e o sabre, preparados para partir para Angola.

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“Se demos um tiro foi apenas para caçar” (Duarte Silva Marques, Angola 1973/1975)

Em Angola sem combater

“Se demos um tiro foi apenas para caçar”

Sorte. Passámos por muitas dificuldades mas nunca estivemos frente a frente com o inimigo. Regressaram todos os camaradas da companhia.

Numa travessia pelo meio da mata, desde o nosso aquartelamento até à Companhia de Comando e Serviços (CCS), a uns 30 quilómetros, perdemo-nos e ficámos sem comida – tínhamos atirado fora as rações de combate, porque não gostávamos delas. Chegámos a um ponto em que nem sequer havia comunicações, o nosso rádio não funcionava, e dissemos uns aos outros que se o inimigo aparecesse até à mão nos agarrava. Alguns camaradas nem reacção teriam para puxar pela espingarda, quanto mais disparar.

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